WALL-E / Watchmen Mashup Trailer from Andrew Buckle on Vimeo.
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Wall.e por Alan Moore?
Bom... essa é definitivamente pra provar a importância da montagem e trilha sonora(inclusive e/ou principalmente de um trailer)!!!
domingo, 3 de maio de 2009
A dançarina
Não havia palco nem cortinas. Para os artistas, um pequeno biombo montado com placas de trânsito velhas e para a público o chão frio e acolhedor da praça. Eram muitos, sentados e em pé. Alguns passavam e nem se davam ao trabalho de olhar o que acontecia. Outros, contudo, vinham e aconchegavam-se em meio a seus novos colegas desconhecidos.
A audiência ainda não havia terminado de aplaudir o último artista quando ele entrou em cena. O casaco roto e os maneirismos ao andar lhe faziam parecer saído de algum século passado. Andou ao centro da roda formada pelas pessoas e parou.
Olhou para baixo. Estendeu as mãos à frente do corpo e as recolheu em um abraço. Aguardou. Aguardou. Jogou os braços para cima, soltando-se de joelhos no chão. Como que respondendo à dramática cena, a caixa de som instalada no passeio entoou uma melodia de poucos acordes, pesada.
Ele olhou na direção de seu público. Nos olhos de cada um deles. O incômodo fazia com que as pessoas desviassem o olhar ou sorrissem umas para as outras, evitando-o. Ela não. Ela encarou-o fixamente.
Ele levantou-se e com movimentos leves e circulares chegou até a jovem, levantando-a. Abraçaram-se e rodopiaram de volta ao centro das atenções. A música, agora mais melodiosa, lutava para propagar-se pela madrugada gelada.
O frio, contudo, não parecia atingir o casal, que agora dançava finamente. Os passos, como que coreografados, encantavam a platéia, que assoviava e batia palmas.
Ele já não os ouvia. Olhava ao redor e no lugar de seu público, haviam pequenos pontos luminosos que brilhavam na escuridão. A música etérea embalava-os. O chão tornara-se macio e branco.
Um grito:
- TIREM ELE DAÍ! NEM ENGRAÇADO ELE É!! - gritou um homem que passava ancorando-se em dois amigos, ambos segurando garrafas parcialmente vazias.
Os olhares de reprovação de muitos dos espectadores eram em vão.
- PALHAÇO SEM GRAÇA! DANÇAR COM ESSA BONECA DE PANO ATÉ EU CONSIGO! - gritou mais uma vez antes de ser afastado de lá pelos outros dois.
A música desceu gradualmente, até parar. Em seu último rodopio, deitou-a no chão. Seu corpo costurado jazeu inerte sobre a pedra fria. Ele tirou o chapéu e sorriu para o público. A maquiagem branca, já um pouco borrada, contrastava com o batom vividamente vermelho. Curvou-se e agradeceu as palmas que agora voltara a ouvir. Pegou a boneca e saiu de cena.
Detrás do biombo, enquanto tirava a maquiagem com uma toalha ainda ouviu um casal que passava criticar impiedosamente o bêbado que atrapalhara o espetáculo. Sorriu. Trocou a roupa, beijou a mulher de pano no rosto e olhou para cima. A escuridão da madrugada dava lugar aos primeiros raios da manhã.
- Desculpe-me, você sabe como é. Ela vai estar me esperando, ela sempre fica. - disse olhando para a boneca. - Isso, não fique triste. Amanhã dançamos de novo.
- Sim, sim! Te amo mais do que ela, mas nunca conte isso, ouviu?! - continuou, após uma pequena pausa encarando-a.
Saiu do pequeno camarim improvisado rindo de si mesmo e andou até a mesma esquina onde os braços ternos o esperavam mais uma vez.

Obs.: Texto dedicado à Virada Cultural 2009.
A audiência ainda não havia terminado de aplaudir o último artista quando ele entrou em cena. O casaco roto e os maneirismos ao andar lhe faziam parecer saído de algum século passado. Andou ao centro da roda formada pelas pessoas e parou.
Olhou para baixo. Estendeu as mãos à frente do corpo e as recolheu em um abraço. Aguardou. Aguardou. Jogou os braços para cima, soltando-se de joelhos no chão. Como que respondendo à dramática cena, a caixa de som instalada no passeio entoou uma melodia de poucos acordes, pesada.
Ele olhou na direção de seu público. Nos olhos de cada um deles. O incômodo fazia com que as pessoas desviassem o olhar ou sorrissem umas para as outras, evitando-o. Ela não. Ela encarou-o fixamente.
Ele levantou-se e com movimentos leves e circulares chegou até a jovem, levantando-a. Abraçaram-se e rodopiaram de volta ao centro das atenções. A música, agora mais melodiosa, lutava para propagar-se pela madrugada gelada.
O frio, contudo, não parecia atingir o casal, que agora dançava finamente. Os passos, como que coreografados, encantavam a platéia, que assoviava e batia palmas.
Ele já não os ouvia. Olhava ao redor e no lugar de seu público, haviam pequenos pontos luminosos que brilhavam na escuridão. A música etérea embalava-os. O chão tornara-se macio e branco.
Um grito:
- TIREM ELE DAÍ! NEM ENGRAÇADO ELE É!! - gritou um homem que passava ancorando-se em dois amigos, ambos segurando garrafas parcialmente vazias.
Os olhares de reprovação de muitos dos espectadores eram em vão.
- PALHAÇO SEM GRAÇA! DANÇAR COM ESSA BONECA DE PANO ATÉ EU CONSIGO! - gritou mais uma vez antes de ser afastado de lá pelos outros dois.
A música desceu gradualmente, até parar. Em seu último rodopio, deitou-a no chão. Seu corpo costurado jazeu inerte sobre a pedra fria. Ele tirou o chapéu e sorriu para o público. A maquiagem branca, já um pouco borrada, contrastava com o batom vividamente vermelho. Curvou-se e agradeceu as palmas que agora voltara a ouvir. Pegou a boneca e saiu de cena.
Detrás do biombo, enquanto tirava a maquiagem com uma toalha ainda ouviu um casal que passava criticar impiedosamente o bêbado que atrapalhara o espetáculo. Sorriu. Trocou a roupa, beijou a mulher de pano no rosto e olhou para cima. A escuridão da madrugada dava lugar aos primeiros raios da manhã.
- Desculpe-me, você sabe como é. Ela vai estar me esperando, ela sempre fica. - disse olhando para a boneca. - Isso, não fique triste. Amanhã dançamos de novo.
- Sim, sim! Te amo mais do que ela, mas nunca conte isso, ouviu?! - continuou, após uma pequena pausa encarando-a.
Saiu do pequeno camarim improvisado rindo de si mesmo e andou até a mesma esquina onde os braços ternos o esperavam mais uma vez.

Obs.: Texto dedicado à Virada Cultural 2009.
sábado, 11 de abril de 2009
Jogando R.I.
Enquanto não sobra mais tempo para escrever...
Jogo 100% R.I. ... Vale a pena gastar alguns minutinhos com ele! Abaixo minha pontuação...
Jogo 100% R.I. ... Vale a pena gastar alguns minutinhos com ele! Abaixo minha pontuação...
This Traveler IQ was calculated on Sunday, April 12, 2009 at 04:38AM GMT by comparing this person's geographical knowledge against the Web's Original Travel Blog's 3,904,806 travelers who've taken the challenge.
sábado, 14 de março de 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
No Cáis de San Blás
Ele se levantou da cama e pôs os pés sobre o chão gelado. Vestiu a camisa branca puída e jogou o casaco surrado por cima. Calçou os sapatos pretos que estavam ao lado da cama. Ela, do outro lado do cômodo, olhou para ele e sorriu, fazendo barulho com a panela que preparava para esquentar água.
Pela única janela, podia-se ver que o sol ainda não tinha lançado nenhum raio e a neblina densa cobria toda a extensão da rua que dava no porto. Tomaram o café silenciosos. Ela encarava-o com os olhos brilhando, um misto de amor e devoção.
- Você precisa mesmo ir? - perguntou ela com a voz embargada.
- Você sabe que sim, não podemos mais morar nessa espelunca. Mais três meses no máximo e conseguimos juntar o dinheiro para nos mudarmos daqui. - respondeu ele sem olhar para a mulher, mordendo novamente o pedaço de pão seco que comia e observando a janela.
- Mas nós estamos bem aqui. Você sabe como eu morro de medo quando você viaja em dias assim.
- Não seja tola. Dias assim são os melhores. Os peixes nadam mais na superfície porque a água fica gelada por aqui também.
- Tudo bem, mas é muito mais perigoso. Quero dizer, essa região é muito cheia de pedras.
A chama da pequena vela já quase no fim apagou-se com um sopro de ar gelado que entrou por entre as frestas da porta velha. Ela puxou o xalé sobre os ombros. A peça destoava do casal e da casa. A lã macia e amarela estava nova, presente de uma mulher para a qual ela trabalha há alguns anos. Levantou-se lentamente e levou as duas canecas para a pia. As paredes escuras eram opressivas, mas ela tentava disfarça-las, trazendo flores colhidas no caminho do porto até a casa.
- Eu vou até o porto com você.
- Não precisa, está muito frio. E ainda nem amanhaceu.
- Mas eu quero. - respondeu ela rapidamente.
- Que seja mulher, você está estranha hoje. - riu-se o marido indo até a porta e abrindo para que ela passasse.
Saíram da casa sem trocar palavras. Percebia-se que o vento gelado a fazia tremer um pouco, mas ela ignorava. Caminhou ao lado dele até chegarem no porto. Lá o silêncio era cortado pelo grito dos homens jogando seus equipamentos no pequeno barco pesqueiro. Gritavam e riam como se continuassem bebendo desde a noite anterior.
Algumas prostitutas ocupavam um ou outro espaço entre as cargas, rindo e se oferecendo para os pescadores. Instintivamente ela se abraçou nele, difícil dizer se para se esquentar ou para mostrá-las de que aquele pescador tinha uma esposa. Depois de algum tempo arrumando os últimos detalhes ele voltou para o banco onde ela ficara esperando e abraçou-a. Ela chorou.
- Eu vou voltar! Não chore, por favor, eu juro que vou voltar! - o vento forte bagunçava seu cabelo negro, enquanto ele tentava fazer com que ela parasse de chorar.
- E eu juro que vou te esperar. Pelo tempo que você ficar no mar eu vou esperar.
Ele desenlaçou-a de seus braços e saiu para a estreita passarela de madeira que saia ao barco. Haviam várias daquela no porto. De algumas restava apenas a estrutura. Diziam que quando um barco não voltava do mar a plataforma da qual ele saíra estava condenada. Ela esperou o barco soltar as amarras e correu pelas tábuas de madeira até o fim da passarela. Acenou para ele por muito tempo, até que o barco se tornasse um ponto no horizonte.
Ela voltou pra casa de cabeça baixa. As ruas que circundavam o cáis eram estreitas e as casas, geralmente sobrados, eram velhas e se projetavam para rua, dando uma impressão de que o caminho era ainda mais apertado. Almoçou e jantou sozinha durante os cinco dias que ele ficaria no mar, mas toda tarde ia até o cáis e sentava-se na plataforma de madeira.
Como era de hábito, usava sempre o mesmo vestido branco que vestira no dia em que ele zarpou. Assim, acreditava ela inocentemente, ele conseguiria a reconhecer de longe, mesmo com outros mulheres e prostitutas que estivessem por perto.
Mas o quinto dia chegou e se foi. E o barco não chegou naquela tarde. Sentada no cáis, ela não se mexeu. Continuou esperando até o dia amanhecer novamente. Pequenos caranguejos brancos subiam pela madeira e alcançavam a barra do vestido da jovem, arrancando-lhe algumas linhas e desfazendo a renda. No meio da manhã a fome foi mais forte do que a vontade de ficar ali, e ela voltou para casa.
Durante a tarde, porém, voltou para o porto e sentou no mesmo ponto que ocupara na noite anterior. Mas o barco também não chegou aquele dia. E o que a princípio era uma opção da mulher tornou-se uma obrigação. Saia de casa todos os dias no meio da tarde e corria ao porto sentar-se na última tábua da passarela de madeira. Enquanto ficava lá, observou outra estrutura de madeira ser erguida alguns metros daquela na qual estava.
A semana terminou, e a próxima também, e depois o mês. Ela, contudo, não falhava um dia em sua solitária rotina. Sentava-se e esperava até o meio da noite. De repente, parou de trabalhar pelas manhãs. Preferia ficar em casa e arrumá-la para quando o marido voltasse. Precisava ter cuidado para não perder o horário do barco. Algumas pessoas tentaram convencê-la a parar de esperar, mas ela ria:
- Não. Eu sonhei que ele ia voltar hoje a tarde.
- Mas já faz mais de seis meses! Você não pode continuar vivendo assim.
- Claro que posso. Porque ele jurou que ia voltar, e eu sei que vai voltar. E vai ser hoje. O que você acha dessa flor? Vou prendê-la ao cabelo para agradá-lo.
Mais dias e meses se passaram. Aos poucos ela emagreceu. Continuava a usar o mesmo vestido branco todas as tardes. A barra já estava completamente estragada pelos caranguejos, e o branco fora substituído por um tom amarelado que escurecia até o marrom no que restara da barra. Paulatinamente, também, a mulher deixou de conversar com as pessoas. Apenas sorria.
As crianças do povoado acostumaram-se a ir até o porto e tirar algumas tábuas do caminho, fazendo com que ela tivesse que saltar alguns espaços para chegar até o local onde sentava todas as tardes. Enquanto as mulheres do povoado, consternadas, levavam comida e roupas para a casa da "louca do cáis", como começou a ser chamada no meio do segundo ano. Não faltou de ir ao cáis nem mesmo no dia em que o médico que visitava a vila a cada quinze dias tentou explicar-lhe que estava ficando doente.
Os anos passaram e o cabelo da mulher já deixara de ser castanho, mesclando-se a longos fios brancos. O vestido já rasgado em várias partes, era apenas costurado a um novo pedaço de tecido branco. As pessoas nem se lembravam mais ao certo o motivo, mas ela fazia o mesmo caminho todos dias, de sua casa ao porto. Numa tarde de abril, um pequeno furgão branco estacionou próximo ao porto, e dois homens desceram. Caminharam pelas tábuas já meio podres, que rangiam e cediam com seu peso.
- Senhora, gostaríamos de levá-la para um lugar mais seguro. - disse um dos homens.
- Por favor, se a senhora nos acompanhar de bom grado, nem precisaremos colocá-la na camisa. - emendou o outro, segurando o item entre as mãos.
A mulher, porém, não respondeu. Entretanto, quando os homens seguraram-na pelos braços ela começou a gritar e espernear. A população que aglomerava-se próxima ao caminhão começou vaiar os homens. Ela chorava, mas era fraca perto dos dois. Alguns homens que assistiam a cena chutavam a lataria do furgão.
- Soltem a louca do cáis. - gritava a multidão que cercava o furgão. - Ela nunca nos atrapalhou! DEIXEM ELA AQUI!!
A algazarra que se seguiu foi imensa. Os vidros da caminhoneta foram quebrados e os pneus furados. O motorista ainda tentou arrancar, mas levou um soco pelo vidro e perdeu a consciência. Destruíram a maçaneta da porta traseira do furgão e abriram-na. A mulher, ao ver a parca luz do crepúsculo levantou-se. O rosto ainda embanhado em lágrimas. Saiu do furgão, enquanto a população local abria espaço para que ela passasse. Sem dizer uma única palavra ela caminhou de volta ao porto, passou pelas tábuas de madeira e sentou-se no cáis. Olhando fixamente para o mar a espera do barco que ainda não chegara. Naquela noite houve festa no pequeno vilarejo. Mas ela não participou. NO horário habitual voltou a sua casa e dormiu.
Seus cabelos já eram totalmente brancos naquela época. A tarde estava horrível. Chovia a três dias consecutivos. O tempo estava tão fechado que a iluminação das ruas tivera de ser acesa as dez horas da manhã. A tempestade caia forte, e os raios cortavam o horizonte. Independente disso, a mulher saiu de casa com seu vestido branco. A névoa impedia de se ver a um palmo de distância. Ainda assim, ela caminhou até o porto e sentou-se no mesmo lugar. as águas revoltas atingiam-na a face, mas ela não se importava.
Na manhã seguinte, quando as pessoas saíram a rua, boa parte da cidade estava arrasada. Tetos haviam sido arrancados e vidraças foram quebradas pela força do vento. A velha passarela de madeira, contudo, estava intacta. Mas a mulher não voltou naquela tarde. Nem na tarde seguinte. No terceiro dia arrombaram porta da pequena casa na qual a velha morara nos últimos cinquenta anos, mas ela não estava lá. A cidade toda vestiu-se de preto naquela semana.
E o tempo passou mais, e a história da louca do cáis foi contada de geração em geração.
Diziam, por fim, que na tarde daquela tempestade, algumas pessoas viram um pequeno ponto de luz no mar aproximando-se do porto e que o barco de seu marido finalmente conseguira voltar para que ele pudesse buscá-la.

Pela única janela, podia-se ver que o sol ainda não tinha lançado nenhum raio e a neblina densa cobria toda a extensão da rua que dava no porto. Tomaram o café silenciosos. Ela encarava-o com os olhos brilhando, um misto de amor e devoção.
- Você precisa mesmo ir? - perguntou ela com a voz embargada.
- Você sabe que sim, não podemos mais morar nessa espelunca. Mais três meses no máximo e conseguimos juntar o dinheiro para nos mudarmos daqui. - respondeu ele sem olhar para a mulher, mordendo novamente o pedaço de pão seco que comia e observando a janela.
- Mas nós estamos bem aqui. Você sabe como eu morro de medo quando você viaja em dias assim.
- Não seja tola. Dias assim são os melhores. Os peixes nadam mais na superfície porque a água fica gelada por aqui também.
- Tudo bem, mas é muito mais perigoso. Quero dizer, essa região é muito cheia de pedras.
A chama da pequena vela já quase no fim apagou-se com um sopro de ar gelado que entrou por entre as frestas da porta velha. Ela puxou o xalé sobre os ombros. A peça destoava do casal e da casa. A lã macia e amarela estava nova, presente de uma mulher para a qual ela trabalha há alguns anos. Levantou-se lentamente e levou as duas canecas para a pia. As paredes escuras eram opressivas, mas ela tentava disfarça-las, trazendo flores colhidas no caminho do porto até a casa.
- Eu vou até o porto com você.
- Não precisa, está muito frio. E ainda nem amanhaceu.
- Mas eu quero. - respondeu ela rapidamente.
- Que seja mulher, você está estranha hoje. - riu-se o marido indo até a porta e abrindo para que ela passasse.
Saíram da casa sem trocar palavras. Percebia-se que o vento gelado a fazia tremer um pouco, mas ela ignorava. Caminhou ao lado dele até chegarem no porto. Lá o silêncio era cortado pelo grito dos homens jogando seus equipamentos no pequeno barco pesqueiro. Gritavam e riam como se continuassem bebendo desde a noite anterior.
Algumas prostitutas ocupavam um ou outro espaço entre as cargas, rindo e se oferecendo para os pescadores. Instintivamente ela se abraçou nele, difícil dizer se para se esquentar ou para mostrá-las de que aquele pescador tinha uma esposa. Depois de algum tempo arrumando os últimos detalhes ele voltou para o banco onde ela ficara esperando e abraçou-a. Ela chorou.
- Eu vou voltar! Não chore, por favor, eu juro que vou voltar! - o vento forte bagunçava seu cabelo negro, enquanto ele tentava fazer com que ela parasse de chorar.
- E eu juro que vou te esperar. Pelo tempo que você ficar no mar eu vou esperar.
Ele desenlaçou-a de seus braços e saiu para a estreita passarela de madeira que saia ao barco. Haviam várias daquela no porto. De algumas restava apenas a estrutura. Diziam que quando um barco não voltava do mar a plataforma da qual ele saíra estava condenada. Ela esperou o barco soltar as amarras e correu pelas tábuas de madeira até o fim da passarela. Acenou para ele por muito tempo, até que o barco se tornasse um ponto no horizonte.
Ela voltou pra casa de cabeça baixa. As ruas que circundavam o cáis eram estreitas e as casas, geralmente sobrados, eram velhas e se projetavam para rua, dando uma impressão de que o caminho era ainda mais apertado. Almoçou e jantou sozinha durante os cinco dias que ele ficaria no mar, mas toda tarde ia até o cáis e sentava-se na plataforma de madeira.
Como era de hábito, usava sempre o mesmo vestido branco que vestira no dia em que ele zarpou. Assim, acreditava ela inocentemente, ele conseguiria a reconhecer de longe, mesmo com outros mulheres e prostitutas que estivessem por perto.
Mas o quinto dia chegou e se foi. E o barco não chegou naquela tarde. Sentada no cáis, ela não se mexeu. Continuou esperando até o dia amanhecer novamente. Pequenos caranguejos brancos subiam pela madeira e alcançavam a barra do vestido da jovem, arrancando-lhe algumas linhas e desfazendo a renda. No meio da manhã a fome foi mais forte do que a vontade de ficar ali, e ela voltou para casa.
Durante a tarde, porém, voltou para o porto e sentou no mesmo ponto que ocupara na noite anterior. Mas o barco também não chegou aquele dia. E o que a princípio era uma opção da mulher tornou-se uma obrigação. Saia de casa todos os dias no meio da tarde e corria ao porto sentar-se na última tábua da passarela de madeira. Enquanto ficava lá, observou outra estrutura de madeira ser erguida alguns metros daquela na qual estava.
A semana terminou, e a próxima também, e depois o mês. Ela, contudo, não falhava um dia em sua solitária rotina. Sentava-se e esperava até o meio da noite. De repente, parou de trabalhar pelas manhãs. Preferia ficar em casa e arrumá-la para quando o marido voltasse. Precisava ter cuidado para não perder o horário do barco. Algumas pessoas tentaram convencê-la a parar de esperar, mas ela ria:
- Não. Eu sonhei que ele ia voltar hoje a tarde.
- Mas já faz mais de seis meses! Você não pode continuar vivendo assim.
- Claro que posso. Porque ele jurou que ia voltar, e eu sei que vai voltar. E vai ser hoje. O que você acha dessa flor? Vou prendê-la ao cabelo para agradá-lo.
Mais dias e meses se passaram. Aos poucos ela emagreceu. Continuava a usar o mesmo vestido branco todas as tardes. A barra já estava completamente estragada pelos caranguejos, e o branco fora substituído por um tom amarelado que escurecia até o marrom no que restara da barra. Paulatinamente, também, a mulher deixou de conversar com as pessoas. Apenas sorria.
As crianças do povoado acostumaram-se a ir até o porto e tirar algumas tábuas do caminho, fazendo com que ela tivesse que saltar alguns espaços para chegar até o local onde sentava todas as tardes. Enquanto as mulheres do povoado, consternadas, levavam comida e roupas para a casa da "louca do cáis", como começou a ser chamada no meio do segundo ano. Não faltou de ir ao cáis nem mesmo no dia em que o médico que visitava a vila a cada quinze dias tentou explicar-lhe que estava ficando doente.
Os anos passaram e o cabelo da mulher já deixara de ser castanho, mesclando-se a longos fios brancos. O vestido já rasgado em várias partes, era apenas costurado a um novo pedaço de tecido branco. As pessoas nem se lembravam mais ao certo o motivo, mas ela fazia o mesmo caminho todos dias, de sua casa ao porto. Numa tarde de abril, um pequeno furgão branco estacionou próximo ao porto, e dois homens desceram. Caminharam pelas tábuas já meio podres, que rangiam e cediam com seu peso.
- Senhora, gostaríamos de levá-la para um lugar mais seguro. - disse um dos homens.
- Por favor, se a senhora nos acompanhar de bom grado, nem precisaremos colocá-la na camisa. - emendou o outro, segurando o item entre as mãos.
A mulher, porém, não respondeu. Entretanto, quando os homens seguraram-na pelos braços ela começou a gritar e espernear. A população que aglomerava-se próxima ao caminhão começou vaiar os homens. Ela chorava, mas era fraca perto dos dois. Alguns homens que assistiam a cena chutavam a lataria do furgão.
- Soltem a louca do cáis. - gritava a multidão que cercava o furgão. - Ela nunca nos atrapalhou! DEIXEM ELA AQUI!!
A algazarra que se seguiu foi imensa. Os vidros da caminhoneta foram quebrados e os pneus furados. O motorista ainda tentou arrancar, mas levou um soco pelo vidro e perdeu a consciência. Destruíram a maçaneta da porta traseira do furgão e abriram-na. A mulher, ao ver a parca luz do crepúsculo levantou-se. O rosto ainda embanhado em lágrimas. Saiu do furgão, enquanto a população local abria espaço para que ela passasse. Sem dizer uma única palavra ela caminhou de volta ao porto, passou pelas tábuas de madeira e sentou-se no cáis. Olhando fixamente para o mar a espera do barco que ainda não chegara. Naquela noite houve festa no pequeno vilarejo. Mas ela não participou. NO horário habitual voltou a sua casa e dormiu.
Seus cabelos já eram totalmente brancos naquela época. A tarde estava horrível. Chovia a três dias consecutivos. O tempo estava tão fechado que a iluminação das ruas tivera de ser acesa as dez horas da manhã. A tempestade caia forte, e os raios cortavam o horizonte. Independente disso, a mulher saiu de casa com seu vestido branco. A névoa impedia de se ver a um palmo de distância. Ainda assim, ela caminhou até o porto e sentou-se no mesmo lugar. as águas revoltas atingiam-na a face, mas ela não se importava.
Na manhã seguinte, quando as pessoas saíram a rua, boa parte da cidade estava arrasada. Tetos haviam sido arrancados e vidraças foram quebradas pela força do vento. A velha passarela de madeira, contudo, estava intacta. Mas a mulher não voltou naquela tarde. Nem na tarde seguinte. No terceiro dia arrombaram porta da pequena casa na qual a velha morara nos últimos cinquenta anos, mas ela não estava lá. A cidade toda vestiu-se de preto naquela semana.
E o tempo passou mais, e a história da louca do cáis foi contada de geração em geração.
Diziam, por fim, que na tarde daquela tempestade, algumas pessoas viram um pequeno ponto de luz no mar aproximando-se do porto e que o barco de seu marido finalmente conseguira voltar para que ele pudesse buscá-la.

Carl Bloch "Menina no cais" (1885)
Baseado livremente na música "En el muelle de Sán Blás", do grupo Maná
domingo, 11 de janeiro de 2009
Nos túneis...
Eram sete horas da manhã quando aconteceu. Os vagões, lotados de pessoas, corriam os túneis escuros sem qualquer desvio dos procedimentos habituais. Vários vigilantes do metrô, trajando suas rotineiras fardas negras caminhavam por entre a multidão, preparados para coibir qualquer tumulto que pudesse acontecer.
- Central, três estações para o fim do meu turno, o Garcia já está na plataforma? - questionou o homem que ocupava a claustrofóbica cabine de controle de um dos trens.
- Tudo certo Jorge, o Garcia já está te esperando na plataforma. - respondeu uma voz feminina bastante metalizada por conta do equipamento antigo da cabine - Não! Espera! Quem está com você ai na cabine?
Na sala da central de controle a mulher se debruçava sobre a mesa. Apoiando a mão sobre o monitor que mostrava a imagem das câmeras de segurança. As longas unhas, pintadas com um esmalte vermelho já desgastado nas pontas, batiam sobre a tela. O monitor, dividido em quatro pequenos quadros, exibia as imagens de quatro câmeras simultâneamente.
- Do que você está falando Célia? É óbvio que eu estou sozinho na cabine. - respondeu Jorge, já acionando o sistema de freios para a chegada à estação na qual trocaria de turno.
- Não, eu vi. Quando seu trem passou na A8, tinha alguém em pé do seu lado.
- Célia! Para com isso, estou te falando que eu estou sozinho aqui! Você dobrou seu turno pra cobrir a Regina hoje?
- Não, eu entrei não faz meia hora.
O trem chegou a estação. Jorge cumprimentou Garcia como habitual. Ambos ficaram algum tempo à porta da cabine do vagão, observando as pessoas entrarem nos vagões, que iam abarrotados de gente. Antes de sair da plataforma Jorge ainda teve tempo de rir vendo Garcia dar uma piscadela pra uma estudante que entrava na última porta próxima à cabine.
Célia levantou-se de sua mesa. Segurou o grande copo de café que estava apoiado sobre alguns guardanapos e saiu em direção ao corredor. Um jovem de cabelo estilo militar ocupou sua cadeira, afastando o guardanapo com uma marca circular de café que sobrara na mesa.
- Volto em quinze minutos. Só vou ao banheiro e pedir pro pessoal da segurança recuperar uma imagem pra mim. - disse, dirigindo-se ao jovem que agora ajeitava o fone de ouvido sobre a cabeça.
O corredor que dava para os banheiros e para a sala de segurança era opressivo. As paredes pintadas de bege apresentavam grandes manchas de mofo, devido a quase nenhuma circulação de ar e incidência de luz. Ainda sim, Célia caminhava tranquilamente.
- Pode entrar Célia. - gritou uma voz masculina vinda de uma sala a direita.
- Como você sabia? - questionou Célia rindo.
- O que? Que era você?
- Isso.
- Você já ouviu o barulho que seu saltos fazem nesse corredor?
- Ahh. - disse rindo - Marcão, não posso ficar muito tempo aqui, deixei o estagiário sozinho lá na sala.
- E por que você fez isso?
- Tem como você recuperar uma imagem da A8 pra mim?
- A que o fantasma aparece?
- Como assim?
- Olha isso. - disse, apertando um dos quatro grandes botões vermelhos em sua frente. - Apareceu pela primeira vez duas semanas atrás, na C1. A Olga que percebeu.
O monitor a esquerda deles mostrava um homem andando pelo escuro túnel do metrô. Só era possível perceber sua presença devido a luz do vagão que chegava.
- Na verdade, ela pensou que fosse acontecer um acidente. Mas o vagão passou sem perceber nada. Ai ele apareceu na A7, coincidentemente também foi com a Olha. - disse, apontando para a imagem.
O homem agora estava sentado num dos vagões. A perna direita cruzada sobre a esquerda, as duas mãos paradas sobre a canela. Esperava a próxima estação.
- Tá, mas o que que tem demais nisso. Pode ser mais um passageiro. - disse Célia, passando a mão sobre o cabelo escovado da noite anterior.
- Seria normal se essa imagem não tivesse sido capturada as 4:30 da manhã. Estavamos apenas fazendo a vistoria padrão dos trilhos e mais nenhum passageiro estava no metrô.
- Não poderia ser alguém que ficou para trás?
- Em vinte anos que eu trabalho aqui, nunca, ninguém ficou para trás. Mas calma, tem mais essas na C3 e na B9. - na imagem, o homem estava em pé, ao lado do técnico que ocupava a cabine de controle do vagão. - Eu gosto dessas duas imagens. A C3 pegou a cabine dianteira, e a B9 a cabine traseira, do mesmo vagão. Com uma diferença de menos de 10 segundos entre as duas imagens.
- Mas, vocês não fizeram nada ainda? - perguntou Célia alisando o braço esquerdo com os dedos. Os pelos de seu braço estavam arrepiados.
- Bom, fizemos. Olha isso. - disse ele apertando agora um dos botões azuis e pausando a imagem no exato frame em que homem olhava para a câmera.
Célia pôde observar melhor o homem. Trajava uma calça jeans surrada e um moletom cinza. O capuz encontrava-se abaixado, caído sobre as costas. A mulher chegou novamente com o rosto próximo a tela, apertando os olhos como se tentasse enxergar longe.
- O rosto. Não tem rosto! - disse com a voz alteradamente mais alta.
- Exatamente. Na verdade, tem rosto, mas a câmera distorce a imagem exatamente sobre o rosto do nosso fantasma. Em todas as aparições. Já mandamos as imagens para um laboratório examinar.
Conversaram mais alguns minutos. Célia despediu-se rindo, esquecida das estranhas imagens que tinham acabado de ver. Marcão tinha acabado de convidá-la para um jantar. Voltou rapidamente para sua sala, parando apenas no banheiro.
O dia correu normalmente. Seu turno havia acabado e ela passava os controles da mesa para Olga, que pegaria o turno das duas da tarde até o começo do turno da noite. De repente, Marcão entrou correndo na sala sacudindo uma folha.
- Pelo amor de Deus, Célia! Olha isso e fala que eu não estou ficando louco. - disso ele arfando, estendendo a ela uma folha na qual podiam-se ver os mesmos quatro quadros que os monitores de segurança mostravam.
- Você só pode estar de brincadeira. Ele não pode ser o fantasma. Você sabe que o ... - a frase foi cortada por um grito agudo que cruzou a sala.
Olga gritava desesperadamente, olhando para os três monitores a sua frente. Neles, via-se uma pequena aglomeração no lado da cabine dianteira de um dos trens parados na plataforma. Os alarmes do metrô soaram.
- Eu achei - disse Olga soluçando - eu achei que fosse o fantasma. Eu não avisei o controlador do trem, eu achei que fosse só o fantasma!
As imagens na tela ficavam um pouco mais compreensíveis conforme os vigilantes tiravam a multidão das proximidades do vagão. Um homem, trajado de jeans e moleton cinza havia se jogado na frente do vagão enquanto ele passava pela plataforma. Célia soltou a folha que segurava e cobriu os olhos, chorando copiosamente.
A folha girou duas vezes no ar e caiu no chão, com a cópia dos quadros da câmera de vigilância virados para cima. Olga olhou para o papel e gritou novamente, observando estarrecida que a imagem do fantasma, depois de limpa pelo laboratório, na verdade mostrava o rosto do controlador de trens do turno da manhã, Jorge.
- Central, três estações para o fim do meu turno, o Garcia já está na plataforma? - questionou o homem que ocupava a claustrofóbica cabine de controle de um dos trens.
- Tudo certo Jorge, o Garcia já está te esperando na plataforma. - respondeu uma voz feminina bastante metalizada por conta do equipamento antigo da cabine - Não! Espera! Quem está com você ai na cabine?
Na sala da central de controle a mulher se debruçava sobre a mesa. Apoiando a mão sobre o monitor que mostrava a imagem das câmeras de segurança. As longas unhas, pintadas com um esmalte vermelho já desgastado nas pontas, batiam sobre a tela. O monitor, dividido em quatro pequenos quadros, exibia as imagens de quatro câmeras simultâneamente.
- Do que você está falando Célia? É óbvio que eu estou sozinho na cabine. - respondeu Jorge, já acionando o sistema de freios para a chegada à estação na qual trocaria de turno.
- Não, eu vi. Quando seu trem passou na A8, tinha alguém em pé do seu lado.
- Célia! Para com isso, estou te falando que eu estou sozinho aqui! Você dobrou seu turno pra cobrir a Regina hoje?
- Não, eu entrei não faz meia hora.
O trem chegou a estação. Jorge cumprimentou Garcia como habitual. Ambos ficaram algum tempo à porta da cabine do vagão, observando as pessoas entrarem nos vagões, que iam abarrotados de gente. Antes de sair da plataforma Jorge ainda teve tempo de rir vendo Garcia dar uma piscadela pra uma estudante que entrava na última porta próxima à cabine.
Célia levantou-se de sua mesa. Segurou o grande copo de café que estava apoiado sobre alguns guardanapos e saiu em direção ao corredor. Um jovem de cabelo estilo militar ocupou sua cadeira, afastando o guardanapo com uma marca circular de café que sobrara na mesa.
- Volto em quinze minutos. Só vou ao banheiro e pedir pro pessoal da segurança recuperar uma imagem pra mim. - disse, dirigindo-se ao jovem que agora ajeitava o fone de ouvido sobre a cabeça.
O corredor que dava para os banheiros e para a sala de segurança era opressivo. As paredes pintadas de bege apresentavam grandes manchas de mofo, devido a quase nenhuma circulação de ar e incidência de luz. Ainda sim, Célia caminhava tranquilamente.
- Pode entrar Célia. - gritou uma voz masculina vinda de uma sala a direita.
- Como você sabia? - questionou Célia rindo.
- O que? Que era você?
- Isso.
- Você já ouviu o barulho que seu saltos fazem nesse corredor?
- Ahh. - disse rindo - Marcão, não posso ficar muito tempo aqui, deixei o estagiário sozinho lá na sala.
- E por que você fez isso?
- Tem como você recuperar uma imagem da A8 pra mim?
- A que o fantasma aparece?
- Como assim?
- Olha isso. - disse, apertando um dos quatro grandes botões vermelhos em sua frente. - Apareceu pela primeira vez duas semanas atrás, na C1. A Olga que percebeu.
O monitor a esquerda deles mostrava um homem andando pelo escuro túnel do metrô. Só era possível perceber sua presença devido a luz do vagão que chegava.
- Na verdade, ela pensou que fosse acontecer um acidente. Mas o vagão passou sem perceber nada. Ai ele apareceu na A7, coincidentemente também foi com a Olha. - disse, apontando para a imagem.
O homem agora estava sentado num dos vagões. A perna direita cruzada sobre a esquerda, as duas mãos paradas sobre a canela. Esperava a próxima estação.
- Tá, mas o que que tem demais nisso. Pode ser mais um passageiro. - disse Célia, passando a mão sobre o cabelo escovado da noite anterior.
- Seria normal se essa imagem não tivesse sido capturada as 4:30 da manhã. Estavamos apenas fazendo a vistoria padrão dos trilhos e mais nenhum passageiro estava no metrô.
- Não poderia ser alguém que ficou para trás?
- Em vinte anos que eu trabalho aqui, nunca, ninguém ficou para trás. Mas calma, tem mais essas na C3 e na B9. - na imagem, o homem estava em pé, ao lado do técnico que ocupava a cabine de controle do vagão. - Eu gosto dessas duas imagens. A C3 pegou a cabine dianteira, e a B9 a cabine traseira, do mesmo vagão. Com uma diferença de menos de 10 segundos entre as duas imagens.
- Mas, vocês não fizeram nada ainda? - perguntou Célia alisando o braço esquerdo com os dedos. Os pelos de seu braço estavam arrepiados.
- Bom, fizemos. Olha isso. - disse ele apertando agora um dos botões azuis e pausando a imagem no exato frame em que homem olhava para a câmera.
Célia pôde observar melhor o homem. Trajava uma calça jeans surrada e um moletom cinza. O capuz encontrava-se abaixado, caído sobre as costas. A mulher chegou novamente com o rosto próximo a tela, apertando os olhos como se tentasse enxergar longe.
- O rosto. Não tem rosto! - disse com a voz alteradamente mais alta.
- Exatamente. Na verdade, tem rosto, mas a câmera distorce a imagem exatamente sobre o rosto do nosso fantasma. Em todas as aparições. Já mandamos as imagens para um laboratório examinar.
Conversaram mais alguns minutos. Célia despediu-se rindo, esquecida das estranhas imagens que tinham acabado de ver. Marcão tinha acabado de convidá-la para um jantar. Voltou rapidamente para sua sala, parando apenas no banheiro.
O dia correu normalmente. Seu turno havia acabado e ela passava os controles da mesa para Olga, que pegaria o turno das duas da tarde até o começo do turno da noite. De repente, Marcão entrou correndo na sala sacudindo uma folha.
- Pelo amor de Deus, Célia! Olha isso e fala que eu não estou ficando louco. - disso ele arfando, estendendo a ela uma folha na qual podiam-se ver os mesmos quatro quadros que os monitores de segurança mostravam.
- Você só pode estar de brincadeira. Ele não pode ser o fantasma. Você sabe que o ... - a frase foi cortada por um grito agudo que cruzou a sala.
Olga gritava desesperadamente, olhando para os três monitores a sua frente. Neles, via-se uma pequena aglomeração no lado da cabine dianteira de um dos trens parados na plataforma. Os alarmes do metrô soaram.
- Eu achei - disse Olga soluçando - eu achei que fosse o fantasma. Eu não avisei o controlador do trem, eu achei que fosse só o fantasma!
As imagens na tela ficavam um pouco mais compreensíveis conforme os vigilantes tiravam a multidão das proximidades do vagão. Um homem, trajado de jeans e moleton cinza havia se jogado na frente do vagão enquanto ele passava pela plataforma. Célia soltou a folha que segurava e cobriu os olhos, chorando copiosamente.
A folha girou duas vezes no ar e caiu no chão, com a cópia dos quadros da câmera de vigilância virados para cima. Olga olhou para o papel e gritou novamente, observando estarrecida que a imagem do fantasma, depois de limpa pelo laboratório, na verdade mostrava o rosto do controlador de trens do turno da manhã, Jorge.
terça-feira, 4 de novembro de 2008
Estórias de rodoviária...
Há cerca de dois ou três anos atrás, eu estava sentado numa rodoviária qualquer. O chão sujo e as paredes cheias de pichações não traziam muito ânimo pro fim de tarde cansativo, depois de um longo dia de trabalho.
A cidade era bastante pequena e havia pouca movimentação na rodoviária. Não me lembro bem o porque, mas naquele dia o ônibus demorou muito além do comum para estacionar na vaga destinada a ele.
Um ou outro pombo fazia algazarra no meio de um monte de milho jogado no chão, no meio dos bancos nos quais as pessoas esperavam. Num desses bancos estava eu, e estava também um senhor bastante velho. Seu olhar parecia distante. Na verdade, focava uma ranhura na parede do outro lado do pequeno átrio de espera. Parecia bastante simples, calçava sandálias de couro marrom e calças jeans já meio sujas nas barras. Contudo, a camisa com finas listras azuis e brancas que ele vestia estava impecavelmente limpa e bem passada.
Lembro-me de ter demorado algum tempo observando o senhor perdido em seus pensamentos:
- Boa tarde. - ele disse, me pegando de surpresa.
- Boa tarde. - respondi eu, sorrindo amarelamente.
- Quantos anos você tem?
- 20, faço 21 em uma semana.
- Foi mais ou menos nessa época que eu casei. Acho que um dos sentimentos mais difíceis de se acostumar é a saudade.
- Porque?
- Faz menos de um mês que minha esposa faleceu.
Um curto silêncio interrompeu o diálogo, um daqueles momentos em que o tempo do relógio não condiz exatamente com o que realmente percebemos:
- Meus pêsames... - respondi meio constrangido.
- Não se preocupe! - continuou ele, mantendo o mesmo sorriso do começo da conversa - Foi o melhor para ela, para nós, sofreu muito, sabe?!
Um ônibus passou soltando jatos de fumaça preta sobre nós. Ambos tapamos os narizes, tentando absorver o mínimo dela:
- Nunca amei outra pessoa na vida. Ela foi minha única mulher e meu único amor.
- O senhor deve estar sentindo muita falta dela.
- Estou me habituando a ver a casa vazia. A chegar no final do dia, depois de passar a manhã e a tarde cortando cana e não ter ninguém em casa.
- Mas o senhor ainda trabalha?
- Trabalhava. Último dia ontem. Estou indo hoje no escritório acertar a papelada. Não que eu quisesse parar, minhas filhas me obrigaram.
- Vai ser mais difícil para ele se acostumar com a solidão sozinho em casa - pensei - Mas se eu fosse filho dele também não ia quere vê-lo trabalhando num canavial nessa idade:
- Essa é a última camisa. - disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Desculpe?
- É, essa foi a última camisa que minha mulher deixou passada para mim.
- Mas suas filhas devem estar lavando a roupa do senhor.
- Estão, estão sim. - respondeu, rindo de um cachorro vira-latas que corria atrás da última pomba restante no pátio - Mas eu estava guardando essa pra uma hora especial. Depois de mais de cinquenta anos trabalhando, o último dia é um dia especial.
- Sem dúvida é.
- Sabe, por muitos anos, todos os dias de manhã, minha mulher mandava que eu trocasse de camisa. Eu trabalhava num dia com uma, e no dia seguinte ela me dava uma limpa para eu vestir.
O ônibus que havia chegado na plataforma saiu fazendo o mesmo barulho e soltando a mesma fumaça, interrompendo novamente nossa conversa.
- No começo isso não me incomodava. Mas eu sempre percebia que os outros homens não trocavam as camisas todo dia, as vezes usavam a mesma camisa suja durante a semana toda. Sabe como é, quando a gente trabalha na roça não liga muito pra essas coisas.
- Entendo. - disse eu, sorrindo para a minha calça limpa e minha camisa ainda bem passada, mesmo depois de um dia de trabalho.
- Mas ela não. Ela me obrigava a trocar de camisa sempre, nunca cheguei a usar duas vezes uma camisa que tivesse o menor sinal de sujeira. Mas teve uma vez, uma vez em quarenta e cinco anos que ela adoeceu. Ficou muito ruim mesmo, os doutores disseram que eram umas pedras.
- No rim?
- Isso, acho que era aí mesmo. - disse ele soltando uma leve gargalhada - Então, nesse mês ela não conseguiu lavar minhas camisas, e eu acabei usando uma camisa suja alguns dias. Até o dia que eu entrei no hospital e ela disse, 'Como assim, você não trocou de camisa?'
- Eu respondi que não, e de repente algumas lágrimas escorreram pelos olhos dela. Eu perguntei se ela estava sentindo alguma dor, mas ela respondeu que não, que estava triste por que eu estava usando camisas sujas.
- Nossa! Mas ela estava se preocupando com isso?
- Foi o que eu pensei. Lembro que eu levantei um pouco a voz e perguntei por que ela estava preocupada com camisas, se a saúde dela era tão mais importante.
- E o que ela disse?
- Ela me respondeu, 'Todos esses anos, eu sempre fiz questão de que você usasse camisas limpas, porque eu queria que qualquer pessoa que olhasse pra você tivesse certeza de que você tinha uma mulher em casa que se preocupava com você. Uma pessoa que acima de qualquer coisa, queria ver você bonito, bem vestido.'
- 'Mas então, todos esses anos, você me fez usar roupa limpa para os outros verem?' eu perguntei pra ela. E ela respondeu: 'Não, eu fiz você usar roupa limpa porque eu queria provar para todas as pessoas que eu te amo, e que eu cuido de você.'
As poucas pessoas que estavam na rodoviária continuavam passando, mas naquele momento eu mal as via. Apenas olhei para o senhor e sorri.
- É por isso que eu te digo, meu filho. Aproveite sua vida o quanto você quiser, mas tenha certeza que pelo menos uma vez você ame alguém de verdade e alguém te ame do mesmo jeito. Por que é só essa certeza que me fez aceitar a falta dela.
Eu esbocei qualquer resposta mas o meu ônibus chegou fazendo barulho. Fiquei sentado, olhando para o vazio junto com o senhor. Alguns minutos passaram sem que eu ou ele falasse qualquer palavra. Foi a voz do motorista que interrompeu nosso silêncio:
- Ônibus saindo!
Eu levantei meio assustado e sorri para o senhor. Ele sorriu de volta e se levantou, me dando um rápido abraço.
- Boa sorte com o negócio do trabalho - foi a primeira coisa que eu pensei em dizer -e parabéns por ter encontrado uma pessoa assim na sua vida.
- Obrigado. - foi a única resposta que eu tive, sem saber ao certo se ele respondeu pelos votos de sorte ou pelo outro comentário. Apenas acenou enquanto o ônibus deixava a plataforma. Acenei de volta e nunca mais o vi.
A cidade era bastante pequena e havia pouca movimentação na rodoviária. Não me lembro bem o porque, mas naquele dia o ônibus demorou muito além do comum para estacionar na vaga destinada a ele.
Um ou outro pombo fazia algazarra no meio de um monte de milho jogado no chão, no meio dos bancos nos quais as pessoas esperavam. Num desses bancos estava eu, e estava também um senhor bastante velho. Seu olhar parecia distante. Na verdade, focava uma ranhura na parede do outro lado do pequeno átrio de espera. Parecia bastante simples, calçava sandálias de couro marrom e calças jeans já meio sujas nas barras. Contudo, a camisa com finas listras azuis e brancas que ele vestia estava impecavelmente limpa e bem passada.
Lembro-me de ter demorado algum tempo observando o senhor perdido em seus pensamentos:
- Boa tarde. - ele disse, me pegando de surpresa.
- Boa tarde. - respondi eu, sorrindo amarelamente.
- Quantos anos você tem?
- 20, faço 21 em uma semana.
- Foi mais ou menos nessa época que eu casei. Acho que um dos sentimentos mais difíceis de se acostumar é a saudade.
- Porque?
- Faz menos de um mês que minha esposa faleceu.
Um curto silêncio interrompeu o diálogo, um daqueles momentos em que o tempo do relógio não condiz exatamente com o que realmente percebemos:
- Meus pêsames... - respondi meio constrangido.
- Não se preocupe! - continuou ele, mantendo o mesmo sorriso do começo da conversa - Foi o melhor para ela, para nós, sofreu muito, sabe?!
Um ônibus passou soltando jatos de fumaça preta sobre nós. Ambos tapamos os narizes, tentando absorver o mínimo dela:
- Nunca amei outra pessoa na vida. Ela foi minha única mulher e meu único amor.
- O senhor deve estar sentindo muita falta dela.
- Estou me habituando a ver a casa vazia. A chegar no final do dia, depois de passar a manhã e a tarde cortando cana e não ter ninguém em casa.
- Mas o senhor ainda trabalha?
- Trabalhava. Último dia ontem. Estou indo hoje no escritório acertar a papelada. Não que eu quisesse parar, minhas filhas me obrigaram.
- Vai ser mais difícil para ele se acostumar com a solidão sozinho em casa - pensei - Mas se eu fosse filho dele também não ia quere vê-lo trabalhando num canavial nessa idade:
- Essa é a última camisa. - disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Desculpe?
- É, essa foi a última camisa que minha mulher deixou passada para mim.
- Mas suas filhas devem estar lavando a roupa do senhor.
- Estão, estão sim. - respondeu, rindo de um cachorro vira-latas que corria atrás da última pomba restante no pátio - Mas eu estava guardando essa pra uma hora especial. Depois de mais de cinquenta anos trabalhando, o último dia é um dia especial.
- Sem dúvida é.
- Sabe, por muitos anos, todos os dias de manhã, minha mulher mandava que eu trocasse de camisa. Eu trabalhava num dia com uma, e no dia seguinte ela me dava uma limpa para eu vestir.
O ônibus que havia chegado na plataforma saiu fazendo o mesmo barulho e soltando a mesma fumaça, interrompendo novamente nossa conversa.
- No começo isso não me incomodava. Mas eu sempre percebia que os outros homens não trocavam as camisas todo dia, as vezes usavam a mesma camisa suja durante a semana toda. Sabe como é, quando a gente trabalha na roça não liga muito pra essas coisas.
- Entendo. - disse eu, sorrindo para a minha calça limpa e minha camisa ainda bem passada, mesmo depois de um dia de trabalho.
- Mas ela não. Ela me obrigava a trocar de camisa sempre, nunca cheguei a usar duas vezes uma camisa que tivesse o menor sinal de sujeira. Mas teve uma vez, uma vez em quarenta e cinco anos que ela adoeceu. Ficou muito ruim mesmo, os doutores disseram que eram umas pedras.
- No rim?
- Isso, acho que era aí mesmo. - disse ele soltando uma leve gargalhada - Então, nesse mês ela não conseguiu lavar minhas camisas, e eu acabei usando uma camisa suja alguns dias. Até o dia que eu entrei no hospital e ela disse, 'Como assim, você não trocou de camisa?'
- Eu respondi que não, e de repente algumas lágrimas escorreram pelos olhos dela. Eu perguntei se ela estava sentindo alguma dor, mas ela respondeu que não, que estava triste por que eu estava usando camisas sujas.
- Nossa! Mas ela estava se preocupando com isso?
- Foi o que eu pensei. Lembro que eu levantei um pouco a voz e perguntei por que ela estava preocupada com camisas, se a saúde dela era tão mais importante.
- E o que ela disse?
- Ela me respondeu, 'Todos esses anos, eu sempre fiz questão de que você usasse camisas limpas, porque eu queria que qualquer pessoa que olhasse pra você tivesse certeza de que você tinha uma mulher em casa que se preocupava com você. Uma pessoa que acima de qualquer coisa, queria ver você bonito, bem vestido.'
- 'Mas então, todos esses anos, você me fez usar roupa limpa para os outros verem?' eu perguntei pra ela. E ela respondeu: 'Não, eu fiz você usar roupa limpa porque eu queria provar para todas as pessoas que eu te amo, e que eu cuido de você.'
As poucas pessoas que estavam na rodoviária continuavam passando, mas naquele momento eu mal as via. Apenas olhei para o senhor e sorri.
- É por isso que eu te digo, meu filho. Aproveite sua vida o quanto você quiser, mas tenha certeza que pelo menos uma vez você ame alguém de verdade e alguém te ame do mesmo jeito. Por que é só essa certeza que me fez aceitar a falta dela.
Eu esbocei qualquer resposta mas o meu ônibus chegou fazendo barulho. Fiquei sentado, olhando para o vazio junto com o senhor. Alguns minutos passaram sem que eu ou ele falasse qualquer palavra. Foi a voz do motorista que interrompeu nosso silêncio:
- Ônibus saindo!
Eu levantei meio assustado e sorri para o senhor. Ele sorriu de volta e se levantou, me dando um rápido abraço.
- Boa sorte com o negócio do trabalho - foi a primeira coisa que eu pensei em dizer -e parabéns por ter encontrado uma pessoa assim na sua vida.
- Obrigado. - foi a única resposta que eu tive, sem saber ao certo se ele respondeu pelos votos de sorte ou pelo outro comentário. Apenas acenou enquanto o ônibus deixava a plataforma. Acenei de volta e nunca mais o vi.
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