domingo, 21 de junho de 2009

A Rua das Oliveiras

- Não, naquela época nem chamavam ele de Zé do Caminho. Pelo que me falaram foi uns dez anos atrás.



Dizem que já ia pela terceira semana de julho quando tudo começou. A tarde estava muito mais fria do que o normal quando o Zé foi chamado até a sala do chefe. As paredes brancas e a mobília toda em alumínio tiravam mais alguns graus de temperatura do ambiente.

- Boa tarde, Sr. José!

- Boa Tarde, Seu Márcio. - respondeu o homem ressabiado, segurando o boné azul estampado com a marca de um posto de gasolina a frente do corpo.

- Então, como o senhor deve saber os tempos estão difíceis. As vendas tem caído muito. O dólar desparou absurdamente recentemente.

- É mesmo, é? - disse o homem, sem ter a menor noção do o outro falava. Na verdade o Zé prestava mesmo era atenção nas listras da gravata do outro, e de como elas lhe causavam vertigem.

- ... então, e por tudo isso, Sr. José, eu queria informar para o senhor que a empresa está o desligando da linha de produção a partir da próxima segunda-feira.

- Como é que é? Desligando assim, de me demitindo?

- Infelizmente é isso mesmo Sr. José.

- Mas, eu nunca fiz nada na vida. Só sei é trabalhar por aqui mesmo. Não tem como demitir outro não?

- Na verdade o senhor não é o único. Vários também serão demitidos.

- Tá, então. - Virou as costas e saiu sem fechar a porta.

Caminhou vagarosamente até a saída da fábrica. Olhou para trás uma última vez e se pôs a andar novamente. Antes que alcançasse a esquina um homem o parou no caminho. Usava apenas uma bermuda laranja e camiseta preta. Devia ter no máximo uns 25 anos.

- Licença senhor, por onde fica a rua das Oliveiras?

- Opa, essa é aqui pertinho. - respondeu o Zé, articulando amplamente os braços para mostrar o caminho. Despediu-se do estranho e continuou seu caminho para casa.




O homem de barba baixou o copo e olhou para o outro, incrédulo:

- Então se tá me falando que o Zé do Caminho ficou louco por que perdeu o emprego? Se for assim a gente té ferrado.

- Tá nada Tião. Esse negócio de férias coletiva é normal nesses negócio de crise igual a gente tá agora. E outra cabra, eu nem terminei de contar ainda a história do Zé.



Nas primeiras semanas o Zé aproveitou o desemprego. Acordava tarde, ia para o bar todo final de expediente encontrar os amigos que não tinham saído da firma. O problema foi quando o fundo de garantia acabou e o dinheiro começou a ficar escasso.

- Mais que droga Matilde. Tô te falando que eu saio todo dia pra procurar emprego, mas ninguém que pegar um burro véio igual eu.

- Tá, mas se você não botar dinheiro nessa casa pra alimentar teus filhos eu levo a Giusleide, a Marinela, o Cleosmar, o Wagnaldo e o Juninho pra Paraíba de volta. E você fica!

- Faz isso não minha nega!

- Faço, e faço com gosto.

Dito e feito. Um mês e meio depois dessa conversa a Matilde levou as crianças de volta pro sertão da Paraíba deixando o pobre sozinho na capital. Ele ainda correu pra rodoviária quando soube que ela tava com os meninos por lá, mas só chegou a tempo de acenar para eles de longe, enquanto o ônibus partia.

Na escada rolante, saindo das plataformas de ônibus um senhorzinho encostou a mão no ombro dele.

- Licença meu filho, sabe onde fica a rua das Oliveiras?

- Vixi meu senhor. Você tá longe demais da rua das Oliveiras, faz assim... - Enquanto explicava o caminho pro homem, algumas pessoas em volta olhavam meio assustadas pro Zé. Mas nada que fizesse ele perceber algo.




- Olha só. Eu não imaginava que o Zé tinha passado por tudo isso não. Pra mim ele sempre foi mendigo mesmo. Sabe, tem uns que a gente acha que são nascido e criado mendigo.

- Então, eu nem lembro quem me contou tudo isso. Olha lá o Zé - disse apontando para o outro lado da rua.

Na calçada contrária à do bar passava um homem velho. As roupas imundas tinham dizeres da campanha presidencial de três anos atrás. A barba era espessa, e se tinha a nítida impressão de pequenas folhas e gravetos estavam enroscadas nela. Ele balançava os braços e apontava direções calmamente. Como se ensinasse um caminho para algúem. Depois continuava a andar cambaleando, a garrafa de cachaça numa mão e o bonezinho azul na outra.

- Quer saber de uma coisa Tião, to indo embora, a Neusa deve tá esperando com as panelas no fogo lá em casa.

- Tô indo também. Tá meio tarde já.

Os dois homens pagaram a conta e saíram do bar, na esquina de uma das ruas do centro da cidade. Andaram por três ruazinhas de pouco movimento, caminho que era comum até a casa dos dois. Alguns metros antes de chegarem na esquina onde iriam se separar, contudo, foram abordados por uma mulher. Ela vestia calça jeans e uma camiseta rosa com um gato desbotado estampado na frente.

- Oi, não sei se vocês podiam me ajudar. Eu preciso chegar num lugar, mas não to achando a rua.

- E qual rua é? - perguntou Tião à mulher.

- Não lembro direito, pera aí. - disse, pegando um papel do bolso - Aqui, achei. É na rua das Oliveiras.

Os dois homens se entreolharam e começaram a gargalhar muito alto. Algumas pessoas que passavam pela viela ficaram olhando assustadas.

E a gente finge que acredita...

Não tinha como não citar isso aqui. Nas últimas semanas, durante a divulgação de seu novo blockbuster o Sr. Michael "Boom" Bay deu a seguinte declaração:

"É fácil fazer um filme de arte numa vinícola na França. Mas as pessoas não têm ideia de como é difícil fazer um Transformers. Os críticos falam mal sem sequer terem visto o filme. Depois de três anos e meio, acho que já tive o bastante do mundo de Transformers. Preciso fazer algo diferente agora, algo sem explosões"

Agora, contextualizando: Michael Bay é o culpado por Pearl Harbour, Armaggedon, A Ilha, Transformers. Resumindo e plagiando o Omelete, se isso for verdade vai ter muito dublê feliz da vida por aí!

BOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOM!

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Desafio de Palavras (I)

Contextualizando... Eu, ele e ele topamos um desafio pra animar os três blogs. Uma vez a cada... a cada... tá, ainda não tem uma frenquência definida, mas de vez em quando um dos três vai propor uma lista de palavras completamente aleatórias para os outros dois escreverem um post. Esse daqui é o primeiro dessa brincadeira. As palavras em negrito são as da lista que ele criou:

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Ela subiu a escada rolante pulando degraus. Ao sair novamente no nível da rua olhou em volta. A longa avenida estendia-se para os dois lados.
As pessoas passavam por ela apressadamente, esbarrando-se. Ninguém notou o olhar de desespero que a jovem lançava ao redor, vasculhando minuciosamente o ambiente como uma raposa observa um cacho de uvas. Finalmente avistou o que procurava, um telefone público.

- Alô?

- Instituto Médico Legal, Sandra, boa tarde. - respondeu a voz anasalada do outro lado.

- Sandra, pelo amor de Deus, eu preciso da sua ajuda. - continuou a jovem aflita.

Após um longo bocejo a mulher respondeu do outro lado:

- Pois não?

- Escuta, meu marido! Ele estava falando comigo no telefone, estava dirigindo, tinha acabado de sair do estacionamento do hospital. Mas de repente a ligação cortou! Pareceu um barulho de acidente, foi horrível.

- Na tarde de hoje quatro corpos foram trazidos para cá, senhora. - respondeu a outra, sem demonstrar qualquer preocupação. - Mas... a senhora já tentou ligar de volta?

- A bateria do meu celular acabou. Mas eu tentei sim. Pelo amor de Deus, Sandra, me fala como são as pessoas que deram entrada aí hoje.

- Não, não... Não deram entrada. A gente costuma brincar que aqui eles deram saída. Sabe como é, né?

- Sei, sei! Mas como eram os homens?

- Sabe que hoje teve um caso engraçado. Um dos homens, ele era bem gordinho. Quando chegou aqui o legista iniciou o procedimento padrão para morte por engasgamento.

- Engasgamento? Não era meu marido então, e os outros?

- Calma. Na verdade ele não morreu engasgado!

- Não?

- Nããããão!!! Você não sabe. Ele morreu na mesa do restaurante enquanto comia uma esfiha. Por isso que o Rafael achou que fosse engasgamento. Mas

depois ele descobriu que a traquéia do homem estava completamente fechada. Acredita?! O homem tinha alergia a diclofenaco potássico! Mas, ainda não descobrimos como ele tomou uma quantidade tão grande do remédio.

- Sandra. Por favor, se concentra em mim. Esse definitivamente não é meu marido. Me fala do outro homem!

- Tá! Calma! Bom, teve o homem da peruca também. Quero dizer, não era totalmente homem. Ou era homem mas não queria ser. Você entendeu?

- Não, não entendi, mas meu marido não usava peruca. Próximo!

- É sério. Eu explico. Chegou aqui usando um vestidão vermelho longo. Lindo! Uma cabeleira loira muito bem cuidada. Mas quando trocamos ela, ou ele, de maca, a peruca caiu. Aí que a gente percebeu que era um homem.

- Tá bom. Tá bom. Era um travesti. Entendi. Acredite, minha querida, meu marido não era um travesti.

- Que bom né. - respondeu a mulher, dando uma longa gargalhada. - Mas olha, vamos facilitar. Qual era a idade do seu marido?

- Trinte e Sete! Algum dos outros dois tem mais ou menos essa idade?

- Sim, sim. Os dois!

- Mas que droga! Então porque você perguntou?

- Só quis ajudar. Desculpa!

O rosto da jovem ficou subitamente vermelho. Um escarlate intenso corava a mulher enquanto o sangue corria mais fortemente por suas veias.

- Sandra. Vamos fazer assim. Eu vou te dar algumas características do meu marido e você me fala se ele é um dos outros dois homens que estão aí.

- Tá bom.

- Ele é alto. Cabelo castanho escuro, mas já tinha alguns fios grisalhos.

- Nossa!

- Que foi? É ele?

- Não! Uma caixa de algodão que tinha chegado ontem aqui sumiu! Acho que fomos roubados. Tenho certeza que foi por causa do espelho que eu quebrei ontem a noite. Você sabe né? Acho que é na mitologia grega que fala dessas coisas né? De ter azar porque quebrou o espelho.

- NÃO! NÃO É A MITOLOGIA GREGA QUE FALA ISSO! PELO AMOR DE DEUS, ME OUVE. MEU MARIDO, O CARLOS, É MÉDICO. OTORRINOLARINGOLOGISTA!

- Escuta aqui minha filha! Você pode ficar toda bravinha aí. Pode até gritar, tô acostumada já! Agora, me chamar de otorrino-sei-lá-o-que! Aí já é demais!

A jovem ficou muda do outro lado. Pensou em pelo menos um milhão de coisas para responder para a outra, mas apenas suspirou.

- Eu não estou te xingando. Otorrinolaringologia é a especialidade do meu marido. Sabe, nariz, ouvido e garganta!

- AHhhhhhhhhhhhhhhhh! Claro que eu sei. Teve até uma história estranha uma vez. Meu namorado é mais novo que eu, sabe. E teve um dia que nós estavamos conversando, e ele ia me pedir pra ir num desses médicos porque ele fala que minha voz é meio irritante. Mas aí, antes dele falar, eu tive um deja vu. Ai, como eu sabia que ele ia dizer isso, eu briguei com ele antes! Ééééééééé! Ele ficou todo assustadinho porque eu previ o que ele ia dizer.

- Sandra. - é a última pergunta que eu faço - Algum dos dois corpos que estão aí é de um médico?

- Não, não é não! São dois mendigos. Alô... Alô????? Alôôôu! Mal educada! Desligou na minha cara!

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Wall.e por Alan Moore?

Bom... essa é definitivamente pra provar a importância da montagem e trilha sonora(inclusive e/ou principalmente de um trailer)!!!

WALL-E / Watchmen Mashup Trailer from Andrew Buckle on Vimeo.

domingo, 3 de maio de 2009

A dançarina

Não havia palco nem cortinas. Para os artistas, um pequeno biombo montado com placas de trânsito velhas e para a público o chão frio e acolhedor da praça. Eram muitos, sentados e em pé. Alguns passavam e nem se davam ao trabalho de olhar o que acontecia. Outros, contudo, vinham e aconchegavam-se em meio a seus novos colegas desconhecidos.

A audiência ainda não havia terminado de aplaudir o último artista quando ele entrou em cena. O casaco roto e os maneirismos ao andar lhe faziam parecer saído de algum século passado. Andou ao centro da roda formada pelas pessoas e parou.
Olhou para baixo. Estendeu as mãos à frente do corpo e as recolheu em um abraço. Aguardou. Aguardou. Jogou os braços para cima, soltando-se de joelhos no chão. Como que respondendo à dramática cena, a caixa de som instalada no passeio entoou uma melodia de poucos acordes, pesada.

Ele olhou na direção de seu público. Nos olhos de cada um deles. O incômodo fazia com que as pessoas desviassem o olhar ou sorrissem umas para as outras, evitando-o. Ela não. Ela encarou-o fixamente.

Ele levantou-se e com movimentos leves e circulares chegou até a jovem, levantando-a. Abraçaram-se e rodopiaram de volta ao centro das atenções. A música, agora mais melodiosa, lutava para propagar-se pela madrugada gelada.

O frio, contudo, não parecia atingir o casal, que agora dançava finamente. Os passos, como que coreografados, encantavam a platéia, que assoviava e batia palmas.
Ele já não os ouvia. Olhava ao redor e no lugar de seu público, haviam pequenos pontos luminosos que brilhavam na escuridão. A música etérea embalava-os. O chão tornara-se macio e branco.

Um grito:

- TIREM ELE DAÍ! NEM ENGRAÇADO ELE É!! - gritou um homem que passava ancorando-se em dois amigos, ambos segurando garrafas parcialmente vazias.

Os olhares de reprovação de muitos dos espectadores eram em vão.

- PALHAÇO SEM GRAÇA! DANÇAR COM ESSA BONECA DE PANO ATÉ EU CONSIGO! - gritou mais uma vez antes de ser afastado de lá pelos outros dois.

A música desceu gradualmente, até parar. Em seu último rodopio, deitou-a no chão. Seu corpo costurado jazeu inerte sobre a pedra fria. Ele tirou o chapéu e sorriu para o público. A maquiagem branca, já um pouco borrada, contrastava com o batom vividamente vermelho. Curvou-se e agradeceu as palmas que agora voltara a ouvir. Pegou a boneca e saiu de cena.

Detrás do biombo, enquanto tirava a maquiagem com uma toalha ainda ouviu um casal que passava criticar impiedosamente o bêbado que atrapalhara o espetáculo. Sorriu. Trocou a roupa, beijou a mulher de pano no rosto e olhou para cima. A escuridão da madrugada dava lugar aos primeiros raios da manhã.

- Desculpe-me, você sabe como é. Ela vai estar me esperando, ela sempre fica. - disse olhando para a boneca. - Isso, não fique triste. Amanhã dançamos de novo.
- Sim, sim! Te amo mais do que ela, mas nunca conte isso, ouviu?! - continuou, após uma pequena pausa encarando-a.

Saiu do pequeno camarim improvisado rindo de si mesmo e andou até a mesma esquina onde os braços ternos o esperavam mais uma vez.


Obs.: Texto dedicado à Virada Cultural 2009.

sábado, 11 de abril de 2009

Jogando R.I.

Enquanto não sobra mais tempo para escrever...
Jogo 100% R.I. ... Vale a pena gastar alguns minutinhos com ele! Abaixo minha pontuação...




This Traveler IQ was calculated on Sunday, April 12, 2009 at 04:38AM GMT by comparing this person's geographical knowledge against the Web's Original Travel Blog's 3,904,806 travelers who've taken the challenge.


sábado, 14 de março de 2009

Da série: E se...

E se Picasso tivesse pintado para a DC Comics...