domingo, 3 de maio de 2009

A dançarina

Não havia palco nem cortinas. Para os artistas, um pequeno biombo montado com placas de trânsito velhas e para a público o chão frio e acolhedor da praça. Eram muitos, sentados e em pé. Alguns passavam e nem se davam ao trabalho de olhar o que acontecia. Outros, contudo, vinham e aconchegavam-se em meio a seus novos colegas desconhecidos.

A audiência ainda não havia terminado de aplaudir o último artista quando ele entrou em cena. O casaco roto e os maneirismos ao andar lhe faziam parecer saído de algum século passado. Andou ao centro da roda formada pelas pessoas e parou.
Olhou para baixo. Estendeu as mãos à frente do corpo e as recolheu em um abraço. Aguardou. Aguardou. Jogou os braços para cima, soltando-se de joelhos no chão. Como que respondendo à dramática cena, a caixa de som instalada no passeio entoou uma melodia de poucos acordes, pesada.

Ele olhou na direção de seu público. Nos olhos de cada um deles. O incômodo fazia com que as pessoas desviassem o olhar ou sorrissem umas para as outras, evitando-o. Ela não. Ela encarou-o fixamente.

Ele levantou-se e com movimentos leves e circulares chegou até a jovem, levantando-a. Abraçaram-se e rodopiaram de volta ao centro das atenções. A música, agora mais melodiosa, lutava para propagar-se pela madrugada gelada.

O frio, contudo, não parecia atingir o casal, que agora dançava finamente. Os passos, como que coreografados, encantavam a platéia, que assoviava e batia palmas.
Ele já não os ouvia. Olhava ao redor e no lugar de seu público, haviam pequenos pontos luminosos que brilhavam na escuridão. A música etérea embalava-os. O chão tornara-se macio e branco.

Um grito:

- TIREM ELE DAÍ! NEM ENGRAÇADO ELE É!! - gritou um homem que passava ancorando-se em dois amigos, ambos segurando garrafas parcialmente vazias.

Os olhares de reprovação de muitos dos espectadores eram em vão.

- PALHAÇO SEM GRAÇA! DANÇAR COM ESSA BONECA DE PANO ATÉ EU CONSIGO! - gritou mais uma vez antes de ser afastado de lá pelos outros dois.

A música desceu gradualmente, até parar. Em seu último rodopio, deitou-a no chão. Seu corpo costurado jazeu inerte sobre a pedra fria. Ele tirou o chapéu e sorriu para o público. A maquiagem branca, já um pouco borrada, contrastava com o batom vividamente vermelho. Curvou-se e agradeceu as palmas que agora voltara a ouvir. Pegou a boneca e saiu de cena.

Detrás do biombo, enquanto tirava a maquiagem com uma toalha ainda ouviu um casal que passava criticar impiedosamente o bêbado que atrapalhara o espetáculo. Sorriu. Trocou a roupa, beijou a mulher de pano no rosto e olhou para cima. A escuridão da madrugada dava lugar aos primeiros raios da manhã.

- Desculpe-me, você sabe como é. Ela vai estar me esperando, ela sempre fica. - disse olhando para a boneca. - Isso, não fique triste. Amanhã dançamos de novo.
- Sim, sim! Te amo mais do que ela, mas nunca conte isso, ouviu?! - continuou, após uma pequena pausa encarando-a.

Saiu do pequeno camarim improvisado rindo de si mesmo e andou até a mesma esquina onde os braços ternos o esperavam mais uma vez.


Obs.: Texto dedicado à Virada Cultural 2009.

Um comentário:

capelotti disse...

Eu sinceramente me lembrei do Bambam e da Maria Eugênia.