segunda-feira, 29 de março de 2010

Lembranças vivas

Com a mão levemente trêmula, segurava a xícara enquanto observava a pequena menina beber seu refrigerante de cor escura. Estava sentada em um cadeira de balanço de madeira clara, talvez cerejeira, que constrastava com o restante da ampla biblioteca. As estantes de livro ocupavam duas paredes opostas, desde o chão encarpetado da sala até o teto. As portas que davam para o cômodo estavam semi-abertas e o vento que passava no corredor fazia um assovio ora agradável, ora um pouco assustador.

- Vovó, a senhora prometeu que ia me contar como a senhora conheceu o vovô. - disse a pequena garota, sentada com as pernas cruzadas sobre a grande cadeira de madeira posicionada ao lado da mulher.

Antes de começar a história, olhou nos olhos da menina e sorriu. Engraçado como ainda não gostava de ser chamada de vovó. 'Acho que sempre fui vaidosa demais para aceitar esse título', pensou ajeitando rapidamente o coque pelo reflexo na janela atrás de sua cadeira, e voltou-se para a menina;

- Bem, minha querida. Você se lembra da história que lhe contei sobre como eu fui a única de minhas irmãs a terminar o colégio e ir para uma faculdade?

- Claro que lembro vovó. - respondeu a pequena - Aliás, já contei pra senhora que eu decidi que quando eu crescer vou estudar a mesma coisa que você?

- É mesmo, minha pequena? Então você também vai ser professora de história? - perguntou a mulher bebericando o chá.

- Não! Eu vou ser historiadora, igualzinho a senhora falou que queria ser. Assim, eu acho legal dar aulas, mas só quando eu estiver bem velha. No começo eu quero viajar... viajar e estudar tudo.

A senhora sorriu, observando pela janela atrás da menina a chuva que caía:

- Então é melhor você começar a guardar dinheiro amanhã! - disse rindo - Eu tive que desistir porque não tinha tanto dinheiro assim, só para viajar e estudar.

- Eu sei, mas eu vou vender limonada durante o verão todo também. E acho que ainda vou vender mais alguma coisa, assim eu consigo mais dinheiro do que a senhora conseguiu e aí eu vou poder viajar.

- Muito bom! Ótima idéia! Mas voltando ao meu casamento, quando estive na faculdade, tive um professor pelo qual eu era apaixonada. Eu o achava lindo, bem mais velho que eu, com um lindo cabelo grisalho.

- Ah vovó. E desde quando cabelo grisalho é lindo? Fica parecendo uma cabecinha cheia de flocos de neve! - interrompeu a menina rindo.

- E você não gosta de brincar na neve? - continuou bem-humorada - Pois bem, eu ia em todas as aulas, frequentava o grupo de estudos coordenado por ele, resumindo, era a aluna mais aplicada que um professor poderia ter. Em pouco tempo ele sabia quem eu era. E melhor, sabia que eu era inteligente e louca por ele.

Um brilho de um raio entrou na sala, deixando as duas sem fala por alguns instantes. Quando a luminosidade diminui a senhora retomou a fala:

- Mas, naquela época era simplesmente inaceitável que um professor e uma aluna namorassem. Mesmo que eles se amassem muito.

A menina deu o último gole e colocou o copo sobre a mesinha de apoio mais à esquerda:

- E o que vocês fizeram? A senhora não desistiu por causa disso, né? Quero dizer, depois de ter praticamente fugido de casa pra fazer a faculdade, namorar escondidinho não era nada pra você!

Olhando para o desenho de dois pássaros azuis na xícara que acabara de pousar sobre a mesinha da direita a mulher riu:

- Eu não precisei fazer nada, na verdade. Quando percebemos que nós teriamos problemas com a direção da faculdade ele simplesmente pediu demissão para podermos ficar juntos.

- Ai, que lindo! E ai vocês viveram felizes para sempre?

Outro raio iluminou fortemente a sala. Na verdade, este foi bastante providencial, uma vez que a senhora precisou de alguns segundos a mais ensaiando uma voz um pouco menos embargada e mais alegre.

- Mais ou menos, minha querida Ana. Vivemos os melhores momentos da minha vida, por cerca de dez anos. Mas então ele pegou um avião para um seminário numa faculdade na Inglaterra e o avião nunca chegou no destino.

Dessa vez foi a menina que ficou calada. Desdobrou os joelhos e soltou as pernas balançando um pouco a cadeira, acompanhando o movimento da avó:

- E a senhora ficou muito triste? Quero dizer, a senhora era nova ainda, podia ter casado de novo.

- Eu nao quis, senti que ele havia completado de tal forma a minha vida que eu sabia que ele estaria sempre presente. Casar de novo seria muito injusto, na verdade - disse rindo levemente - o novo marido seria sempre pior do que ele.

- Entendi! Acho muito bonito isso vó. Quero dizer, a senhora ter vivido um amor tão grande que bastou pra vida toda. Espero que um dia eu encontre alguém assim!

- Tenho certeza que você irá! Tenho certeza absoluta.

As duas portas da biblioteca se abriram.

- Com quem a senhora estava falando, Dona Ana? - perguntou a enfermeira carregando uma cadeira de rodas.

- Estava só relembrando alguns bons momentos, Maria, comigo mesma!

A enfermeira ajeitou a senhora na cadeira e a levou devagar até a porta. Enquanto era carregada, a senhora olhou para a meninha, que do outro lado da sala saia de mãos dadas com a enfermeira que também havia entrado pela outra porta e piscou com um olho só, sorrindo. A menina abanou a mão alegremente de volta.
Antes de apagar a luz do cômodo a enfermeira ajeitou o uniforme no grande espelho que forrava toda a parede esquerda, dando a impressão de grandeza para a pequena biblioteca.

4 comentários:

Joyce Dotinha disse...

Fiquei pensando no porque de ser uma valha professora de história. Estranho...

Pati disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pati disse...

Celsinho! entendi porque você queria tanto que eu entrasse de novo no seu blog... rs!

Achei muito bonito o texto!! E inclusive bastante providencial tê-lo lido hoje: sabado vou visitar a minha avo e lembrei que, na ultima vez que encontrei com ela, ela QUASE me contou sobre o meu avô... Preciso dar um jeito de retomar essa conversa! rs.

Continua escrevendo, que eu vou continuar lendo...

Beijos!!

Pati disse...

MARCO DE 2010!
Que vergonha hein Celso, que vergonha... hahaha

:b