segunda-feira, 14 de julho de 2008

Ode à Impessoalidade



São 5:00 (e por 5:00 leia-se, 5:00, nada de a.m. ou p.m., 5:00 pura e simplesmente!) de uma segunda-feira. A cidade já começou um novo dia. A cidade não terminou o dia anterior. O vagão está a cerca de 20 metros em direção ao centro da terra, mas e daí? Ainda não há luz la fora.
Um grupo de homens vestidos de ternos pretos pára na plataforma. Devem ser músicos, eles carregam umas grandes caixas pretas. Mas... poderiam ser gângsters, de alguma máfia local. As caixas poderiam estar cheias de armas! Não, são músicos. Indo ou voltando? Os sapatos cegam de tão lustrados. Certamente estão indo. O som aumenta. Não é mais só o vento, nem os homens tocando. O trem chegou e as pessoas entram nos vagões. Mecânicos - tanto pessoas quanto vagões.
Uma mulher vestida de branco está sentada alguns lugares a frente. Ela encosta a cabeça no vidro mas não fecha os olhos. As olheiras não escondem, ela está voltando de um hospital. Talvez trabalhe lá, talvez seja voluntária. Também, isto independe, ela não está mais lá, nem está aqui, ela está muito mais longe disto tudo aqui.
Casais entram abraçados. Homens, mulheres, homens, homens, mulheres, mulheres. Voltam de uma festa, e falam alto, a música provavelmente era muito boa na festa, foi o assunto de duas estações. Saem ser ver ninguem, tal qual entraram.
Uma moça com um livro na mão abaixa-o rapidamente para ler o nome da próxima estação. Chorando. A história do livro deve ser triste, ou então a história da vida dela.
Algumas estações a frente e ouve-se... Estação Terminal. Todos que ainda sobraram descem. O dia nem amanhaceu mas ninguem percebeu, as plataformas já estão cheias de pessoas, sozinhas. 5:45!! Boa noite...

14:30 do mesmo "dia". O mesmo buraco metros abaixo da rua. E ele continua cheio de gente. Muito mais gente. E as pessoas continuam entrando e saindo dos vagões. Agora, além de não ver umas as outras elas se esbarram, e se empurram. Uns olham pro chão, outros sequer olham pra frente. O vagão começa a se mover e um rapazinho desavisado perde o equilibrio e cai no chão.Os dois homens que estavam próximos sequer moveram os pés para impedir o menino de cair. A mãe puxa o menino pela mãe e fala alguma coisa no seu ouvido. Pela cara do menino ela não deve ter tido nenhuma palavra de conforto pela queda.
Uma estação está chegando. As portas da esquerda se abrem, algumas pessoas entram, outras saem e... ei! esperem! ela me olhou... Aquela loira sorriu pra mim! Ela está ficando pra trás. Espera! Me acenou da plataforma! Ela pode ser o amor da... bom, esquece, o vagão voltou pra escuridão de novo. E dessa vez está claro lá em cima.
Na escada que dá acesso a luz novamente há um cartaz. Três milhões de pessoas por dia passam por alí. E nenhuma delas trocou uma palavra. Se ao menos eles se cumprimentasse, não não, se ao menos eles sorrissem. A cidade nunca começou novos dias. A cidade nunca terminou os dias anteriores. Boa noite...

2 comentários:

René Moraes - Ele mesmo. disse...

"Uma moça com um livro na mão abaixa-o rapidamente para ler o nome da próxima estação. Chorando. A história do livro deve ser triste, ou então a história da vida dela"
"Se ao menos eles se cumprimentasse, não não, se ao menos eles sorrissem. A cidade nunca começou novos dias. A cidade nunca terminou os dias anteriores. Boa noite..."
Muito bom Celsera!
curti pra caramba... divulga mais teu blog! Põe no orkut, põe no metrô sei lá hahah aliás eu vi q vc nem tava linkado no meu blog, vou te linkar... agora vc tem o "Selo Corolários de Qualidade!" ahhaha abraços

Goiab'dullah disse...

vc tah ouvindo coldplay demais na hora de escrever os posts...coloca um pouco de sérgio malandro e vê o que sai
hehehehehe

esse texto saiu mt bom velho, tah cada vez mió

abraços e ateh 3 dias