domingo, 11 de janeiro de 2009

Nos túneis...

Eram sete horas da manhã quando aconteceu. Os vagões, lotados de pessoas, corriam os túneis escuros sem qualquer desvio dos procedimentos habituais. Vários vigilantes do metrô, trajando suas rotineiras fardas negras caminhavam por entre a multidão, preparados para coibir qualquer tumulto que pudesse acontecer.

- Central, três estações para o fim do meu turno, o Garcia já está na plataforma? - questionou o homem que ocupava a claustrofóbica cabine de controle de um dos trens.

- Tudo certo Jorge, o Garcia já está te esperando na plataforma. - respondeu uma voz feminina bastante metalizada por conta do equipamento antigo da cabine - Não! Espera! Quem está com você ai na cabine?

Na sala da central de controle a mulher se debruçava sobre a mesa. Apoiando a mão sobre o monitor que mostrava a imagem das câmeras de segurança. As longas unhas, pintadas com um esmalte vermelho já desgastado nas pontas, batiam sobre a tela. O monitor, dividido em quatro pequenos quadros, exibia as imagens de quatro câmeras simultâneamente.

- Do que você está falando Célia? É óbvio que eu estou sozinho na cabine. - respondeu Jorge, já acionando o sistema de freios para a chegada à estação na qual trocaria de turno.

- Não, eu vi. Quando seu trem passou na A8, tinha alguém em pé do seu lado.

- Célia! Para com isso, estou te falando que eu estou sozinho aqui! Você dobrou seu turno pra cobrir a Regina hoje?

- Não, eu entrei não faz meia hora.

O trem chegou a estação. Jorge cumprimentou Garcia como habitual. Ambos ficaram algum tempo à porta da cabine do vagão, observando as pessoas entrarem nos vagões, que iam abarrotados de gente. Antes de sair da plataforma Jorge ainda teve tempo de rir vendo Garcia dar uma piscadela pra uma estudante que entrava na última porta próxima à cabine.

Célia levantou-se de sua mesa. Segurou o grande copo de café que estava apoiado sobre alguns guardanapos e saiu em direção ao corredor. Um jovem de cabelo estilo militar ocupou sua cadeira, afastando o guardanapo com uma marca circular de café que sobrara na mesa.

- Volto em quinze minutos. Só vou ao banheiro e pedir pro pessoal da segurança recuperar uma imagem pra mim. - disse, dirigindo-se ao jovem que agora ajeitava o fone de ouvido sobre a cabeça.

O corredor que dava para os banheiros e para a sala de segurança era opressivo. As paredes pintadas de bege apresentavam grandes manchas de mofo, devido a quase nenhuma circulação de ar e incidência de luz. Ainda sim, Célia caminhava tranquilamente.

- Pode entrar Célia. - gritou uma voz masculina vinda de uma sala a direita.

- Como você sabia? - questionou Célia rindo.

- O que? Que era você?

- Isso.

- Você já ouviu o barulho que seu saltos fazem nesse corredor?

- Ahh. - disse rindo - Marcão, não posso ficar muito tempo aqui, deixei o estagiário sozinho lá na sala.

- E por que você fez isso?

- Tem como você recuperar uma imagem da A8 pra mim?

- A que o fantasma aparece?

- Como assim?

- Olha isso. - disse, apertando um dos quatro grandes botões vermelhos em sua frente. - Apareceu pela primeira vez duas semanas atrás, na C1. A Olga que percebeu.

O monitor a esquerda deles mostrava um homem andando pelo escuro túnel do metrô. Só era possível perceber sua presença devido a luz do vagão que chegava.

- Na verdade, ela pensou que fosse acontecer um acidente. Mas o vagão passou sem perceber nada. Ai ele apareceu na A7, coincidentemente também foi com a Olha. - disse, apontando para a imagem.

O homem agora estava sentado num dos vagões. A perna direita cruzada sobre a esquerda, as duas mãos paradas sobre a canela. Esperava a próxima estação.

- Tá, mas o que que tem demais nisso. Pode ser mais um passageiro. - disse Célia, passando a mão sobre o cabelo escovado da noite anterior.

- Seria normal se essa imagem não tivesse sido capturada as 4:30 da manhã. Estavamos apenas fazendo a vistoria padrão dos trilhos e mais nenhum passageiro estava no metrô.

- Não poderia ser alguém que ficou para trás?

- Em vinte anos que eu trabalho aqui, nunca, ninguém ficou para trás. Mas calma, tem mais essas na C3 e na B9. - na imagem, o homem estava em pé, ao lado do técnico que ocupava a cabine de controle do vagão. - Eu gosto dessas duas imagens. A C3 pegou a cabine dianteira, e a B9 a cabine traseira, do mesmo vagão. Com uma diferença de menos de 10 segundos entre as duas imagens.

- Mas, vocês não fizeram nada ainda? - perguntou Célia alisando o braço esquerdo com os dedos. Os pelos de seu braço estavam arrepiados.

- Bom, fizemos. Olha isso. - disse ele apertando agora um dos botões azuis e pausando a imagem no exato frame em que homem olhava para a câmera.

Célia pôde observar melhor o homem. Trajava uma calça jeans surrada e um moletom cinza. O capuz encontrava-se abaixado, caído sobre as costas. A mulher chegou novamente com o rosto próximo a tela, apertando os olhos como se tentasse enxergar longe.

- O rosto. Não tem rosto! - disse com a voz alteradamente mais alta.

- Exatamente. Na verdade, tem rosto, mas a câmera distorce a imagem exatamente sobre o rosto do nosso fantasma. Em todas as aparições. Já mandamos as imagens para um laboratório examinar.

Conversaram mais alguns minutos. Célia despediu-se rindo, esquecida das estranhas imagens que tinham acabado de ver. Marcão tinha acabado de convidá-la para um jantar. Voltou rapidamente para sua sala, parando apenas no banheiro.

O dia correu normalmente. Seu turno havia acabado e ela passava os controles da mesa para Olga, que pegaria o turno das duas da tarde até o começo do turno da noite. De repente, Marcão entrou correndo na sala sacudindo uma folha.

- Pelo amor de Deus, Célia! Olha isso e fala que eu não estou ficando louco. - disso ele arfando, estendendo a ela uma folha na qual podiam-se ver os mesmos quatro quadros que os monitores de segurança mostravam.

- Você só pode estar de brincadeira. Ele não pode ser o fantasma. Você sabe que o ... - a frase foi cortada por um grito agudo que cruzou a sala.

Olga gritava desesperadamente, olhando para os três monitores a sua frente. Neles, via-se uma pequena aglomeração no lado da cabine dianteira de um dos trens parados na plataforma. Os alarmes do metrô soaram.

- Eu achei - disse Olga soluçando - eu achei que fosse o fantasma. Eu não avisei o controlador do trem, eu achei que fosse só o fantasma!

As imagens na tela ficavam um pouco mais compreensíveis conforme os vigilantes tiravam a multidão das proximidades do vagão. Um homem, trajado de jeans e moleton cinza havia se jogado na frente do vagão enquanto ele passava pela plataforma. Célia soltou a folha que segurava e cobriu os olhos, chorando copiosamente.

A folha girou duas vezes no ar e caiu no chão, com a cópia dos quadros da câmera de vigilância virados para cima. Olga olhou para o papel e gritou novamente, observando estarrecida que a imagem do fantasma, depois de limpa pelo laboratório, na verdade mostrava o rosto do controlador de trens do turno da manhã, Jorge.

3 comentários:

Clara Madrigano disse...

Uau, hein, Celso? Cada vez melhor.

René Moraes - Ele mesmo. disse...

Estava ouvindo rádio esses dias qdo escuto o anúncio "Leiam Celso Bal o nooooovo Stephen King!"
procede?
um 2009 literário pra vc!

capelotti disse...

Muito bom! Digno de um "O horla".