terça-feira, 4 de novembro de 2008

Estórias de rodoviária...

Há cerca de dois ou três anos atrás, eu estava sentado numa rodoviária qualquer. O chão sujo e as paredes cheias de pichações não traziam muito ânimo pro fim de tarde cansativo, depois de um longo dia de trabalho.
A cidade era bastante pequena e havia pouca movimentação na rodoviária. Não me lembro bem o porque, mas naquele dia o ônibus demorou muito além do comum para estacionar na vaga destinada a ele.
Um ou outro pombo fazia algazarra no meio de um monte de milho jogado no chão, no meio dos bancos nos quais as pessoas esperavam. Num desses bancos estava eu, e estava também um senhor bastante velho. Seu olhar parecia distante. Na verdade, focava uma ranhura na parede do outro lado do pequeno átrio de espera. Parecia bastante simples, calçava sandálias de couro marrom e calças jeans já meio sujas nas barras. Contudo, a camisa com finas listras azuis e brancas que ele vestia estava impecavelmente limpa e bem passada.
Lembro-me de ter demorado algum tempo observando o senhor perdido em seus pensamentos:

- Boa tarde. - ele disse, me pegando de surpresa.
- Boa tarde. - respondi eu, sorrindo amarelamente.
- Quantos anos você tem?
- 20, faço 21 em uma semana.
- Foi mais ou menos nessa época que eu casei. Acho que um dos sentimentos mais difíceis de se acostumar é a saudade.
- Porque?
- Faz menos de um mês que minha esposa faleceu.

Um curto silêncio interrompeu o diálogo, um daqueles momentos em que o tempo do relógio não condiz exatamente com o que realmente percebemos:

- Meus pêsames... - respondi meio constrangido.
- Não se preocupe! - continuou ele, mantendo o mesmo sorriso do começo da conversa - Foi o melhor para ela, para nós, sofreu muito, sabe?!

Um ônibus passou soltando jatos de fumaça preta sobre nós. Ambos tapamos os narizes, tentando absorver o mínimo dela:

- Nunca amei outra pessoa na vida. Ela foi minha única mulher e meu único amor.
- O senhor deve estar sentindo muita falta dela.
- Estou me habituando a ver a casa vazia. A chegar no final do dia, depois de passar a manhã e a tarde cortando cana e não ter ninguém em casa.
- Mas o senhor ainda trabalha?
- Trabalhava. Último dia ontem. Estou indo hoje no escritório acertar a papelada. Não que eu quisesse parar, minhas filhas me obrigaram.

- Vai ser mais difícil para ele se acostumar com a solidão sozinho em casa - pensei - Mas se eu fosse filho dele também não ia quere vê-lo trabalhando num canavial nessa idade:

- Essa é a última camisa. - disse ele interrompendo meus pensamentos.
- Desculpe?
- É, essa foi a última camisa que minha mulher deixou passada para mim.
- Mas suas filhas devem estar lavando a roupa do senhor.
- Estão, estão sim. - respondeu, rindo de um cachorro vira-latas que corria atrás da última pomba restante no pátio - Mas eu estava guardando essa pra uma hora especial. Depois de mais de cinquenta anos trabalhando, o último dia é um dia especial.
- Sem dúvida é.
- Sabe, por muitos anos, todos os dias de manhã, minha mulher mandava que eu trocasse de camisa. Eu trabalhava num dia com uma, e no dia seguinte ela me dava uma limpa para eu vestir.

O ônibus que havia chegado na plataforma saiu fazendo o mesmo barulho e soltando a mesma fumaça, interrompendo novamente nossa conversa.

- No começo isso não me incomodava. Mas eu sempre percebia que os outros homens não trocavam as camisas todo dia, as vezes usavam a mesma camisa suja durante a semana toda. Sabe como é, quando a gente trabalha na roça não liga muito pra essas coisas.
- Entendo. - disse eu, sorrindo para a minha calça limpa e minha camisa ainda bem passada, mesmo depois de um dia de trabalho.
- Mas ela não. Ela me obrigava a trocar de camisa sempre, nunca cheguei a usar duas vezes uma camisa que tivesse o menor sinal de sujeira. Mas teve uma vez, uma vez em quarenta e cinco anos que ela adoeceu. Ficou muito ruim mesmo, os doutores disseram que eram umas pedras.
- No rim?
- Isso, acho que era aí mesmo. - disse ele soltando uma leve gargalhada - Então, nesse mês ela não conseguiu lavar minhas camisas, e eu acabei usando uma camisa suja alguns dias. Até o dia que eu entrei no hospital e ela disse, 'Como assim, você não trocou de camisa?'
- Eu respondi que não, e de repente algumas lágrimas escorreram pelos olhos dela. Eu perguntei se ela estava sentindo alguma dor, mas ela respondeu que não, que estava triste por que eu estava usando camisas sujas.
- Nossa! Mas ela estava se preocupando com isso?
- Foi o que eu pensei. Lembro que eu levantei um pouco a voz e perguntei por que ela estava preocupada com camisas, se a saúde dela era tão mais importante.
- E o que ela disse?
- Ela me respondeu, 'Todos esses anos, eu sempre fiz questão de que você usasse camisas limpas, porque eu queria que qualquer pessoa que olhasse pra você tivesse certeza de que você tinha uma mulher em casa que se preocupava com você. Uma pessoa que acima de qualquer coisa, queria ver você bonito, bem vestido.'
- 'Mas então, todos esses anos, você me fez usar roupa limpa para os outros verem?' eu perguntei pra ela. E ela respondeu: 'Não, eu fiz você usar roupa limpa porque eu queria provar para todas as pessoas que eu te amo, e que eu cuido de você.'

As poucas pessoas que estavam na rodoviária continuavam passando, mas naquele momento eu mal as via. Apenas olhei para o senhor e sorri.

- É por isso que eu te digo, meu filho. Aproveite sua vida o quanto você quiser, mas tenha certeza que pelo menos uma vez você ame alguém de verdade e alguém te ame do mesmo jeito. Por que é só essa certeza que me fez aceitar a falta dela.

Eu esbocei qualquer resposta mas o meu ônibus chegou fazendo barulho. Fiquei sentado, olhando para o vazio junto com o senhor. Alguns minutos passaram sem que eu ou ele falasse qualquer palavra. Foi a voz do motorista que interrompeu nosso silêncio:

- Ônibus saindo!

Eu levantei meio assustado e sorri para o senhor. Ele sorriu de volta e se levantou, me dando um rápido abraço.

- Boa sorte com o negócio do trabalho - foi a primeira coisa que eu pensei em dizer -e parabéns por ter encontrado uma pessoa assim na sua vida.
- Obrigado. - foi a única resposta que eu tive, sem saber ao certo se ele respondeu pelos votos de sorte ou pelo outro comentário. Apenas acenou enquanto o ônibus deixava a plataforma. Acenei de volta e nunca mais o vi.

2 comentários:

René Moraes - Ele mesmo. disse...

Celso... estou mudo!
Parabéns... q história linda!
Valeu por ter compartilhado... me emocionei várias vezes enquanto lia... muito bem escrito tbém!
Parabéns e obrigado!

Pati disse...

BAH!

Celsinho.. é maldade fazer esse tipo de coisa com pessoas que estao longe e vulneraveis e sensiveis..!

Lindissimo texto!!

Saudades!
Bisous