quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Os Fones Brancos

Saltou mais cedo do que o habitual da cama naquela terça-feira. Procurou sair do pequeno quarto sem fazer qualquer barulho, mas esbarrou numa cadeira cheia de roupas passadas na noite anterior. Assustado, olhou para trás. Os dois irmãos continuavam dormindo na outra cama de solteiro do quarto.
A roupa estava separada sobre o sofá da sala. No começo tinha sido terrível habituar-se a tirar a roupa do quarto para não acordar as crianças, mas depois de um mês isso já havia se tornado uma rotina que não o incomodava mais.

- Bom dia, mãe. - disse em um tom de voz ainda baixo.
- Bom dia, meu filho. - respondeu a mulher à beira do fogão. Ela esquentava água numa leiteira já meio enegrecida pelo fogo e pelo tempo. Usava uma saia verde já bastante gasta e uma camiseta com propaganda de um candidato nas eleições de seis anos atrás.

Simultaneamente, mãe e filho fizeram o mesmo movimento com a mão. Ela, ao desligar o fogo; ele, ao girar a maçaneta da porta:

- Não vai tomar o café hoje, Gilmar? - perguntou a mulher, segurando a leiteira com um pano de prato e virando-a sobre o coador preparado com o pó de café.
- Hoje não, Dona Zuleica. Quero chegar logo lá na empresa. - respondeu o rapaz, já com a mochila nas costas e metade do corpo do lado de fora da pequena casa.
- E porque essa pressa toda?
- É que hoje é dia de pagamento, mãe. Meu primeiro pagamento.
- Bom trabalho então. Tenha um bom dia! - respondeu ela, ouvindo a porta fechar às suas costas.

Enquanto observava o pó de café ceder ao calor da água fervente não pode deixar de pensar no quanto estava feliz. O menino era muito novo ainda. Só dezesseis anos. E tinha optado trabalhar por conta própria para ajudá-la. Depois de tudo que ele passara com o pai, antes da cirrose, e depois com o irmão mais velho, antes da cadeia.

Na rua, Gilmar esfregava os braços contra o corpo. A camisa de algodão azul clara não era exatamente quente, e a malha que a cobria também não segurava o forte vento que cortava o ponto de ônibus. Tinha ouvido numa televisão, ao passar em frente a padaria, que era uma das manhãs mais frias do ano. E ali, naquele ponto, graças a arquitetura dos barracos se lançando uns contras os outros, e todos contra a rua estreita, o vento corria canalizado, diminuindo ainda mais a sensação térmica.

Entrou no ônibus cumprimentando motorista e cobrador. Conhecia ambos, já que pegava a mesma linha, no mesmo horário há um mês, exatamente. Sentou-se num dos bancos da parte traseira, de onde podia observar cada um dos passageiros que entravam até que o ônibus ficasse lotado. Uma coisa comum a quase todos passageiros chamava sua atenção: os fones de ouvido. Quando o pai quebrou o rádio de pilha que tinham em casa, cinco anos atrás, ele prometeu que daria um desses "trecos de enfiar na orelha" pro filho, mas veio a doença. Desde então ficava observando os modelos que as pessoas usavam. Fios longos, curtos, brancos, pretos. Esses dias tinha visto, inclusive, um sem fio!

Desceu com alguma dificuldade do ônibus, espremendo-se entre as pessoas. Olhou no relógio de pulso, comprado em um camelô. Cumprira sua meta, chegar meia hora antes no trabalho. Olhou parao grande prédio, com seus vidros negros, e entrou. Tirou do bolso o crachá novo - tinha trocado o provisório por este há apenas 4 dias. Desceu as escadas e foi direto para a sala do cordenador do programa dos aprendizes.

- Bom dia, Seu Carlos. - cumprimentou, efuzivo.
- Bom dia, Gil. Chegou mais cedo hoje né? - respondeu o homem, ocupando quase toda a sala.
- Só um pouco. Pequei pouco trânsito, Seu Carlos.
- Que bom, Gil. Melhor mesmo, assim eu já te entrego o seu cheque e você se livra da fila que me atrapalha a vida todo dia dez. - disse o homem abrindo a gaveta da mesa a sua frente. - Um mês já! Tá gostando do trabalho?
- Tô sim, Seu Carlos. O pessoal aqui da empresa tá me ensinando um monte de coisas. - respondeu o garoto.

Carlos percebeu que ele queria dizer alguma coisa mais, mas parecia escolher as palavras certas.

- Desembucha logo, filho. O que você quer?
- Têm como o senhor me dar uma carta, alguma coisa com o quanto eu recebo seu Carlos? É que hoje eu vou passar numa loja lá perto de casa, pra comprar um MP3, e eles falaram que querem uma carta daqui pra poderem parcelar pra mim. - disse o rapaz, acanhado.
- Mas é lógico, Gil. Peço pra Renata fazer um holleritizinho pra você hoje mesmo. Passa aqui na hora do almoço.
- Obrigado, viu Seu Carlos.

Por volta das quatro horas, quando ia embora todos os dias, passou novamente na sala do Senhor Carlos, pegou o hollerith prometido e saiu do prédio. No ônibus, muito mais vazio devido ao horário, leu e releu o papel impresso com seu salário. Sorriu. Deu sinal para o motorista parar o ônibus, cerca de seis pontos antes daquele próximo a sua casa.

Entrou na loja, que ocupava quase toda a esquina. O atendente, um homem magro e já meio calvo, o abordou logo na entrada. Aquilo parecia o paraíso para Gilmar. Eram tantos modelos e cores. No fim, escolheu um dos que tinha o fio branco. Sempre tinha achado os de fio branco mais bonitos. Não sabia muito bem o porque, mas o vendedor ainda conseguiu fazer um preço especial para o modelo que já vinha com rádio embutido, ia pagar só quinze reais a mais, por ele. Ainda na porta da loja tirou o aparelho da caixa. Com as mão tremendo de alegria encaixou o fone no aparelho e ligou-o. Sintonizou numa das estações que se lembrava do número e sorriu. O som era claro e tocava uma das músicas que ele mais gostava. Aumentou o volume no máximo, para ver até onde o aparelhinho alcançava. Enfiou a caixa e outros pequenos plásticos na sacola e pisou na rua para atravessá-la, de volta ao ponto.


Com o telefone na mão, Dona Zuleica soltou o copo de suco de goiaba que segurava. Ao se espatifar no chão, o líquido escorreu vagarosamente pelo chão torto e empoçou-se num canto da sala. Também vagarosamente escorria o líquido vermelho contra o asfalto. O ônibus estava parado poucos metros a frente, e a multidão aglomerava-se.

- Acho que ele não ouviu a buzina. - disse o motorista, olhando para o corpo estendido próximo a sarjeta. Podia-se escutar o som alto que vinha dos fones de ouvido brancos largados sobre a poça vermelha.

3 comentários:

Clara Madrigano disse...

Meu fone de iPod é branco, Celso. Espero que não esteja profetizando alguma coisa.

Good story.

Fernanda disse...

Celso... não vou mais ouvir música enquanto estiver caminhando na rua..

Bjus..

capelotti disse...

O Ministério da Saúde adverte.