quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Síndrome

Nos mudamos para Cap. Grass há mais ou menos três semanas. A cidade é bem pequena, acho que no máximo uns 150 mil habitantes, mas bastante agradável. Fica acho que uns setenta quilômetros de Gainesville, na direção da costa oeste. Acho que a mudança fez muito bem para a Alice, desde que nos mudamos ela parou com o comportamento estranho.
Na verdade, foi o psiquiatra dela que me disse para escrever esse diário . Segundo ele, era importante eu amarrar uma ponta da minha sanidade em algo que eu pudesse consultar sempre, para não me perder junto com ela. Na verdade eu achei essa conversa uma tremenda besteira, mas como a mudança foi idéia dele e parece ter funcionado não vi problema nenhum em fazer o que ele disse.
Os Wilson, nossos vizinhos nos chamaram para um churrasco na piscina deles no próximo sábado. A Alice ficou empolgada para ir mas eu não tenho certeza se é uma boa idéia. Vai que eles convidam muitas pessoas. O problema da Alice começou justamente numa festa lotada de gente desconhecida.

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Dezenove dias. Somente dezenove dias de tranquilidade. Sabia que não deviamos ter ido na festa. A comida estava ótima, os hamburgueres que o John serviu estavam no ponto mas, de fato, eles chamaram mais gente. Acho que eram dez ou quinze pessoas no máximo. A Alice não disse nada na hora, mas quando chegou em casa... Vou tentar reescrever o diálogo, assim eu posso mostrar para o dr. Bleuler:

- Você tinha ido embora. Tinha ficado em New York.
- Como assim, babe? Do que você tá falando.
- Já te falei para não me chamar de "babe". Só o Bob pode me chamar assim.
- Mas... eu sou... eu sou o Bob querida. Seu marido!
- Não é! Eu sei que não é! Você é igual a ele. Muito igual. Mas eu sinto, eu posso sentir que você não é ele. SAÍA DAQUI!! SAÍA DA MINHA CASA AGORA!!

Foi mais ou menos nessa hora que ela arremessou o vaso que havíamos ganhado dos Wilson contra da parede atrás de mim. Precisei sair de casa, como vinha acontecendo nos últimos meses. Quando ela dormiu eu dei o remédio.
Meu Deus! Eu achei que esse pesadelo tivesse parado.

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As coisas pioraram na última semana. Não fiz as contas direito mas me parece que ela passou mais tempo confusa do que sã dessa vez. Não aguentei, liguei para o Centro Neurológico em NY de novo. A idiota da recepcionista disse que nenhum dos médicos responsáveis poderia me atender pelo telefone... de novo. Acabei ligando para o Bleuler e ele insistiu que eu ignorasse os surtos e tentasse manter a vida nos trilhos, para que ela se acostumasse novamente com a minha face. Como assim, se acostumar com a minha face?
Mesmo assim comecei a ler o livro que ele me indicou. Só consegui começar porque os remédios que ele passou para acalmá-la basicamente a fazem dormir o dia todo. Assim até eu me acalmaria. O livro é bastante didático, e isso é bom. Ele consegue me explicar alguns detalhes que o Bleuler sempre considerou ponto comum de entendimento. O conceito da tal propagnosia espelhada que ele sempre falou é bem simples: o cérebro mantém a capacidade de reconhecer formas e rostos, mas perde a capacidade de associar sentimentos pregressos a ele. Grande merda acadêmica; é muito fácil escrever teoria quando nunca se passou por isso.
Esse é o problema dos médicos. Eles não se envolvem, eles não sabem realmente o que é sentir. Minha mãe foi enfermeira em um hospital público em Vermont. Lembro até hoje dela chegar em casa chorando. Eu devia ter uns nove ou dez anos na época, e perguntava se alguém tinha morrido naquele dia. A resposta era quase sempre a mesma: "Não é preciso que alguém morra para que eu sinta a dor". Os médicos não sentem a dor, a própria Alice não sente a dor. Eu sinto! Eu sinto a dor por nós todos.

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Parece que os remédios começaram a fazer efeito. Ela quase não se confundiu essa semana. Só tem um problema, ela passa metade do tempo dopada. Mal consegue falar qualquer coisa. Não quero isso para ela. Estou pensando em diminuir a dose do medicamento, sem falar com o Bleuler mesmo.

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Não, não, NÃO! Durou menos tempo do que quando nos mudamos para cá. Hoje a tarde eu estava sentado na sala quando senti a faca da cozinha entrando no meu ombro. Ela gritou que eu era um estranho tentando me passar pelo marido dela, mas que quando ele chegasse eu ia aprender uma lição. Os médicos do hospital que fizeram a sutura tentaram me forçar a registrar uma queixa contra ela na Polícia. Foi preciso o Bleuler ligar lá e explicar para eles a condição completa da Alice para que eu pudesse voltar para casa em paz. Ela já estava dormindo, mas achei melhor dormir na sala.

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Acho que a crise do último mês passou, finalmente. A Alice tem me reconhecido todas as manhãs. Ela até me levou café na cama domingo passado. Vamos ver um jogo dos Marlins semana que vem. O pai dela sempre foi fanático por baseball e ela sempre gostou de ir ao estádio lembrar dele, mesmo que não entendesse uma única regra sequer de baseball.
O problema é que eu continuo com medo. Cada vez que a Alice me olha por algum motivo eu tenho a impressão de que ela vai começar a gritar de novo. Marquei uma consulta com um outro psquiatra, para mim. Quero algum remédio para me acalmar. Tentei comprar algum tarja preta, mas os farmaceuticos certinhos desse inferno de cidade não quiseram me vender sem receita.

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Quase não consigo explicar minha alegria. Ela conseguiu passar um mês sem ter uma crise sequer. Quero dizer, alguns dias ela demorou muito mais do que uma pessoa normal demoraria para me reconhecer, mas pelo menos não tentou me matar de novo. O organismo dela começou a se acostumar com a medicação porque ela não fica mais tão dopada. Os calmantes tem me feito bem, também. Agora estou conseguindo dormir quase todas as noites.

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Agora a pouco fui escovar meus dentes e tomei um susto. Um outro homem estava olhando para mim de dentro do espelho. Parecia tanto comigo, TANTO! Mas não era eu, tenho certeza que não era eu. Acertei um soco em cheio no espelho. Eu gostava daquele espelho, mas pelo menos mandei o impostor embora, tenho certeza que mandei.


2 comentários:

Clara Madrigano disse...

Quite neilgaimanish.

capelotti disse...

"Como se fosse a primeira vez" com amargor e melancolia que Hollywood não permite.